Fale Conosco

Arte e Cultura

O engenheiro e o universitário que vivem como malabaristas

Rodrigo Nóbile e Guilherme Junges conseguem se sustentar com a apresentação nas ruas da cidade

Publicado

em

A cada mudança de cor no semáforo, um novo show. De terça a domingo – descansam na segunda-feira porque ninguém é de ferro – ocupam o asfalto na esquina da avenidas Capitão Índio Bandeira e Manoel Mendes de Camargo, na região do Jardim Isabel em Campo Mourão, e fazem do asfalto o palco. Lançando  claves, bastões  e bolinhas para o alto e os equilibrando na descida, divertem quem passa pelo local e  ganham a vida como artistas anônimos. Mas quem são eles?

As roupas coloridas e chamativas de Rodrigo Nóbile, 26 anos, camuflam a formação em Engenharia Civil  Se para muitos a conclusão do ensino superior simboliza o início da vida profissional na área estudada, para Nóbile a história foi bem diferente. A não identificação com a área  gerou no engenheiro uma angústia que o levou a cursar Artes Visuais, após estagiar em uma empresa pública. No curso, descobriu  as artes circenses e resolveu fazer delas a sua forma de ganhar a vida. A mudança foi motivada principalmente pela priorização do próprio bem-estar e pela busca por outro ritmo de vida.

O ritmo de trabalho também atraiu Guilherme Junges, 25 anos, que cursa o último ano de Turismo e Meio Ambiente na Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e não pensa em deixar os malabares  após a graduação. Ele revela que conheceu a técnica por meio de um amigo, que despertou sua curiosidade e o levou a aprender sozinho e nunca mais parar. Para o malabarista, a tradição cultural da cidade de Campo Mourão favorece a sua atividade: “Acho que isso contribui para a galera olhar muito tranquila para o artista de rua em Campo Mourão, sabendo que não é assim no Brasil inteiro”.

Receptividade do Público

Para Nóbile  o tamanho da cidade é o que contribui para a receptividade do público. Ele justifica que em cidades grandes o receio de assalto cria um preconceito em relação aos artistas de rua. Já nas cidades pequenas, ele observa que as pessoas têm mais necessidade e vontade em entrar em contato com cultura, o que faz com que geralmente gostem e apreciem mais.

O fato de estar numa cidade menor também aproxima a vida dos artistas ao seu público, como explica Junges, que já se tornou conhecido na região. Ele conta que isso gerou uma identificação que fez com que as pessoas mudassem seu olhar sobre sua profissão: “Às vezes a pessoa acha que eu tenho uma vida toda alternativa, mas eu tenho uma vida parecida com uma galera aí, eu tenho casa, pago aluguel, pago conta de água e luz, internet, boleto tá lá todo mês pra pagar, igualzinho todo mundo”.

Como qualquer outra profissão, o artista de rua também encontra dificuldades na profissão. Para ambos, elas estão no fato de não ter benefícios trabalhistas como férias, vale alimentação, vale transporte e, principalmente, auxílio em caso de acidentes que impossibilitem que eles trabalhem normalmente, como já aconteceu com Junges, que chegou a ficar uma semana sem trabalhar e, portanto, sem receber, por conta de uma dor no tornozelo. 

Mesmo assim, o artista garante que o trabalho é mais vantajoso financeiramente do que outros empregos nos quais esteve. O lucro por dia gira em torno de R$ 60 , que varia de acordo com o horário trabalhado. Os pontos positivos não estão apenas no fator econômico, mas, como Nóbile explica, a vantagem também está na diversão que o trabalho proporciona, principalmente na aproximação com as crianças.

Os dois universitários garantem que os malabares terão espaço dentro do futuro que planejam. Para Nóbile, a profissão atual inclusive contribui para sua formação: “Eu estudo Artes Visuais com a ideia de ser professor de artes. E eu acho que ser artista de rua ou ter passado uma experiência com arte de rua vai trazer muito a me acrescentar nas artes, na escola, em desenvolver visões de arte não óbvias”, explana.

Os planos do turismólogo em formação, cujo objetivo é ser professor universitário, também incluem a arte de rua “eu não sei que o que me espera depois de formado, mas eu não penso jamais em largar os malabares, nem que seja como hobbie. “O que eu gosto muito mesmo é o contato, de vir aqui, de olhar nos olhos das pessoas, ver que tem criança dando risada, criança com cara de ‘nossa, o que foi isso que ele fez?’”. Para ele, é a sinceridade e a singularidade desta proximidade que o motiva pensar em um futuro em que suas claves e bastões continuem dividindo espaço com seus livros acadêmicos.

Comente

Comentários

Copyright®i44 News. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do i44 News (redacao@i44.com.br).