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Comportamento

Frente Feminista quer conquistar mulheres da periferia

Psicóloga diz que há resistência em discutir o tema em Campo Mourão

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Debater assuntos como maternidade, sexualidade, desigualdade salarial e violência de gênero. Estes são, de acordo a professora de História e ativista Franciele Flach, alguns dos temas discutidos nas reuniões da Frente Feminista de Campo Mourão, grupo criado por ela e outras mulheres do município no início de 2017, com o objetivo de congregar em um mesmo espaço mulheres que se intitulam feministas.

A ideia, segundo a historiadora, surgiu após sua participação em uma plenária de um mandato político na qual, apesar de contar com a presença de várias mulheres, percebeu que estas passavam longe de exercer algum tipo de protagonismo.

A partir disso, começou a articular com outras colegas a criação de espaços de discussão que tivessem como pauta demandas dos movimentos feministas. Ela revela que os primeiros passos aconteceram via rede social, com a criação de um grupo de discussão no qual foram adicionadas mulheres que já tinham alguma intimidade com o tema, que por sua vez também foram adicionando outras mulheres até expandir para as mais de 200 participantes virtuais que hoje contém.

De acordo com Franciele, com o envolvimento das mulheres, as discussões ganharam materialidade por meio de encontros presenciais que acontecem ao menos uma vez ao mês e que geralmente contam com a participação de 15 a 20 mulheres. As reuniões, que inicialmente trouxeram um panorama histórico e teórico dos movimentos feministas, visam também outros assuntos relacionados à violência e desigualdade de gênero, que partem das necessidades elencadas pelas próprias participantes – o grupo funciona horizontalmente, ou seja, não há uma líder.

Para Nayara Lopes, psicóloga e também participante da frente, a criação do coletivo responde a uma tendência dos grupos excluídos nos últimos anos na busca por recuperar uma história que não foi contada: a sua própria história. “Ter um grupo onde essas pessoas têm espaço para serem ouvidas é poder reconstruir a sua história, lutar contra a violência de gênero e é também, principalmente, dar o direito de existência a essas mulheres, o que antes não era possível”, defende.

Para ela, isto é um reflexo do desconhecimento das pessoas em relação ao significado de feminismo, o qual define como a conquista da autonomia da mulher e a luta pelos seus direitos. Mas é com a pluralidade do perfil das participantes – mulheres casadas, divorciadas, solteiras, estudantes universitárias, secundaristas e profissionais graduadas – que Nayara acredita desmitificar o tema: “Por vezes feministas são vistas como ‘mulheres-machos’, feias, agressivas, e um grupo diversificado minimiza essa ideia que em uma cidade como Campo Mourão ainda tem”, argumenta.

Opinião também compartilhada por sua colega historiadora: “Muitas vezes, aqui principalmente, por ser uma cidade de interior, as pessoas não querem se dizer feministas, porque há um preconceito muito grande ainda no ‘ser feminista’, muita gente não sabe, de fato, o que é e tem uma ideia completamente errônea, como se as mulheres odiassem os homens”, complementa a professora, que ainda acrescenta à lista de dificuldades para o avanço nas discussões a pouca tradição da cidade em movimentos sociais, que, segundo ela, são poucos e vivem às margens, sem ocupar muitos lugares de destaque.

As duas feministas concordam que ainda há muito o que avançar, principalmente no que diz respeito a atingir outros grupos sociais, como salienta Franciele: “Nós precisamos chegar até as mulheres da periferia, que muitas vezes estão inclusive em situação de violência doméstica, mas que não têm força para se emancipar ou que não compreende aquilo como violência doméstica e que acham que é normal”. Para Nayara, é preciso que haja o entendimento de que foi por meio do feminismo que se conquistou a Lei Maria da Penha e o reconhecimento do feminicídio, que é assassinato de mulheres motivado pela desigualdade de gênero. E ainda reforça que o grupo abre a possibilidade de que as mulheres possam falar das violências sofridas: “Formar um grupo, um coletivo, nos une e nos aproxima, e é capaz de provocar empatia entre nós o suficiente para reconhecer que violência não é normal, que precisamos de ajuda e de proteção.”

 

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