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Arte e Cultura

Os homens das redes nordestinas tomam conta de Campo Mourão

Eles chegam a ficar longe de casa durante sete meses percorrendo o país com as redes nos ombros

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Não é possível caminhar pelas ruas de Campo Mourão nos últimos dias sem notar a presença deles. Seja sob o sol ou tempo nublado, lá estão eles empurrando seus carrinhos cheios de redes, panos e tapetes pelas ruas da cidade em busca de seu sustento. Em uma vida quase nômade, eles chegam a passar mais de 200 dias longe de casa, rodando milhares de quilômetros por quase todas as regiões do país, tendo o sul como destino entre setembro e fevereiro. Cada rede vendida representa mais um dinheirinho enviado para os familiares que aguardam ansiosos o retorno dos ambulantes à terra natal, onde finalmente poderão descansar por dois meses até começar tudo de novo.

Apesar da saudade de casa e do cansaço das viagens, Severino Torres, 27, não reclama: “É gostoso conhecer os estados, as pessoas, fazer novas amizades e trabalhar assim, ganhar o pão de cada dia”. Em Campo Mourão, ele faz parte de um grupo de mais de 80 vendedores, 36 vindos de São Bento, no sertão da Paraíba – cerca de 3,2 mil km de Campo Mourão – que viajam pelo Brasil dividindo-se em um caminhão e carros tipo pickups para dar conta de transportar toda a mercadoria.

Sua trajetória se assemelha a outra que curiosamente carrega o mesmo nome. Assim como o Severino da obra de João Cabral de Melo Neto, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor, há mais de dez anos Torres deixou os estudos na 6ª série do antigo fundamental para trabalhar como vendedor ambulante, tendo Curitiba como seu primeiro destino. Ele e seus cinco irmãos são a segunda geração da família na profissão, seus sobrinhos estão seguindo o mesmo caminho.

Assim como ele, os vendedores  sobrevivem com uma porcentagem de aproximadamente 30% das vendas, resultando em uma remuneração mensal que vai de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil. Em um dia bom, Severino vende de 10 a 15 redes, a partir de 30 reais cada. O segredo das vendas, segundo ele, é simpatia e educação, “se o freguês for bruto, tem que levar na manha”, brinca.

Bruno Pereira, 24, é de São José de Espinharas (PB), próxima a São Bento, cidade que sobrevive completamente dependente da profissão que iniciou há dez anos.  Ele, que chega a passar até sete meses longe de casa, diz que foi a falta de opção que o colocou na estrada, “na cidade da gente não tem outro ganha pão, então o que a gente tem para oferecer para a família, filhos e viver a vida da gente é sair pelo mundo atrás do pão de cada dia honestamente”.

O tempo de estadia em cada cidade pode variar de dois a 15 dias, dependendo do sucesso das vendas. Para dormir, eles encostam o caminhão e os carros em postos de gasolina e estendem as redes entre os veículos.  A jornada diária vai da disposição e necessidade de cada um, geralmente começando às 8h e indo até às 17h. Nos dias de chuva, como hoje (27), não há vendas. O jeito é guardar a mercadoria e aproveitar a companhia dos colegas de trabalho. “A gente se diverte, conversa um com outro esquecendo a saudade de casa e vai passando os dias”, diz Pereira.

Vindo de Caldas de Cipó, na Bahia, Marcos de Jesus, 41, é um dos mais novos entre seus colegas viajantes. Por falta de emprego formal, há três anos ele começou na profissão que hoje desempenha com orgulho: “agradeço muito a Deus e à rede da fibra do coco da Bahia, essa que hoje eu trabalho com orgulho porque eu morava de favor na casa dos outros e através dessa rede abençoada e desse trabalho digno, hoje eu tenho uma casa pra morar e uma família pra cuidar”.

Discriminação e fiscalização

Além da saudade da família e da árdua rotina das vendas, os vendedores enfrentam outro problema: o preconceito. O ambulante Edmilson Dantas, 25, relata já ter presenciado várias situações de injuria racial e xenofobia ao viajar pela região sul do país. “Se a pessoa vê que você é do nordeste, pensa que você está se acabando de fome”, conta.

Baiano, defende que a imagem negativa de “preguiçoso” associada por muitos ao seu povo é apenas mais uma forma de racismo velado e ainda diz “parece que eles ficam ofendidos porque nós somos trabalhador, não é qualquer pessoa que sai de sua casa, deixa mãe, pai e filho para passar quatro, cinco meses no mundão”.

Ele também reclama da abordagem de alguns ficais municipais, que apreendem a mercadoria e cobram um preço considerado por ele abusivo – cerca de R$500 – para sua liberação.

 

 

 

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