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Desespero exposto no Facebook

Família pede na rede social que internautas não comprem produtos roubados pelo filho, viciado em crack

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O texto postado de forma pública no Facebook no primeiro domingo (6) do ano, não era apenas um mensagem. Era um grito lancinante endereçado a sociedade. “Ele está morrendo aos poucos e nos matando também”, dizia um trecho. A postagem, que obteve 177 compartilhamentos até a noite de sábado (13),  foi realizada no perfil de um rapaz viciado em crack. O cunhado escreveu o texto desesperador, a pedido dos próprios país.

Moradores na área rural da pequena Janiópolis, a 40 km de Campo Mourão, Jair Alves Carneiro, 60, e Maria José Silva Carneiro, 52, pais de Renan Henrique Carneiro já não sabem mais o que fazer  para acabar com o pesadelo diário da família, onde o terror é o próprio filho.

“Tenho um filho que eu queria muito ter, mas está dando tristeza na minha vida. Corta meu coração pela metade. Eu não quero viver essa vida. Não é vida não. A turma já falou que vai matar ele, cortar o pescoço e jogar aqui dentro. O que eu vou fazer?”, desabafa o lavrador Jair.

Nada pode ficar na residência do casal.  Objetos pessoais, roupas, eletrônicos e até carne que estava sendo preparada para o almoço, o filho furtou da própria casa e vendeu a terceiros para manter o vício.


No apelo na rede social, a família pede para que as pessoas não comprem objetos ou produtos vendidos pelo jovem e que denunciem caso ele seja visto praticando algum crime. “O desespero nos levou a tomar essa atitude. Por favor não critiquem, pois precisamos de apoio e não de críticas” pedem eles.

Uma equipe do  i44 News foi até Janiópolis conhecer esse drama familiar, provocado pelas drogas. Encontrou na varanda de sua casa um homem simples e abatido pelas dores diárias . Bastante emocionado, Jair recebeu o jornalista e repórter cinematográfico e os convidou a entrar. Estava disposto a falar de sua dor.

Guiando a reportagem pelo interior da residência, ele mostrava sinais de vandalismo em todos os cômodos, principalmente em móveis, portas e fechaduras. Segundo ele, os danos foram causados pelo filho para subtrair dinheiro e objetos da família e trocar por drogas. Na casa onde mora com a esposa e o rapaz, ele conta que tudo com valor acima de R$ 2 já foi vendido ou trocado pelo jovem para manter o vício.

Sem conseguir conter as lágrimas ao falar sobre a rotina do filho, Jair mostrou os medicamentos que toma na tentativa de amenizar a dor e o sofrimento que tem passado. Segundo ele, foi diagnosticado com depressão e estava recebendo benefício da Previdência Social, devido a incapacidade para trabalhar. O lavrador diz acreditar que o estado saúde é decorrente do drama vivido pela família com o filho viciado em drogas.

Depois de perder dois botijões de gás, ele conta que a solução encontrada foi comprar um novo e toda noite levar para seu quarto na tentativa de evitar que seja furtado pelo filho. Aparelhos de telefone celular para se comunicar com outros membros da família eles também não têm mais, foram todos trocados por drogas. Para saber as horas do dia, o jeito foi trancar um relógio de parede em uma edícula com porta de ferro reforçada e grades na janela.

“Só Deus mesmo”

“Ele não tem controle. O vício tomou conta dele totalmente. Esse caminho de drogas é cadeia ou cemitério. Cadeia ele já foi. Agora eu não sei. Só Deus mesmo”, relatou em prantos a mãe do jovem, a diarista Maria José, mãe de Renan.

Ela acredita que o envolvimento do filho com as drogas teve início quando ele tinha apenas 13 anos, época em que moravam em um sítio e o menino era enviado para estudar na cidade. Maria suspeita que foi neste período, distante dos cuidados dos pais, que o jovem foi influenciado por más companhias. Mas, segundo ela, o drama da família se tornou mais crítico nos últimos cinco anos, quando ele passou a usar o crack.

Maria conta que o filho já passou por quatro tentativas de recuperação em instituições especializadas, mas em todas as oportunidades o jovem não conclui o processo, tendo fugido dos estabelecimentos ou saído antes do prazo estipulado. Na última internação, em maio do ano passado no estado de São Paulo, o jovem ficou apenas quatro meses. Voltou para casa dizendo se sentir livre do vício, mas recaiu ao consumo da droga.

De acordo com os pais, antes do vício, o filho sempre foi um bom menino e desde os oito anos ajudava a tirar leite das vacas e em outros afazeres da propriedade rural onde viviam. Atualmente com 21 anos, o jovem só cursou até a terceira série do ensino fundamental. A mãe relata que, apesar do esforço dela e do marido, o filho é praticamente analfabeto. “Até hoje ele lê e escreve muito mal”, disse ela. Jair lamenta a situação. Ele, que também se declara analfabeto, comentou que sonhava para o filho um outro caminho, com estudo, por lembrar do quanto sofreu na vida por não saber ler e escrever.

Quase no final das entrevistas, o filho do casal chegou na residência. “Venha conversar com o rapaz, eles querem ajudar você”, disse Jair. Sem responder, Renan entrou no banheiro e ali permaneceu por alguns minutos, em silêncio. Segundo os pais, estava fumando crack.

Jair insistiu, mas o jovem retrucou negativamente ao pedido para relatar sobre sua dificuldade em resistir ao vício e, quem sabe, manifestar o interesse de tentar uma nova internação. “Eu espero que ele melhore. Porque se ele não melhorar, pra mim tanto faz eu viver como não viver. Se eu morrer hoje é bom, seu eu morrer amanhã também é. Eu não tenho mais vida. A minha vida não presta”.

Chega ao cérebro em 10 segundos

O crack é uma pedra preparada à base da mistura da pasta de cocaína com diversas substâncias tóxicas como gasolina, querosene e até água de bateria, com bicarbonato de sódio. Fumada em cachimbo, tubo de PVC ou aquecida numa lata, quando queima, a pedra produz o ruído que lhe deu o nome.

Absorvida pelo pulmão, chega ao cérebro em 10 segundos. O usuário sente grande prazer, intensa euforia, sensação de poder, excitação, hiperatividade, insônia, perda de sensação de cansaço e falta de apetite. O efeito é rápido e potente, porém passa depressa, o que leva ao consumo desenfreado, incontrolável.

De acordo as autoridades públicas, o custo relativamente baixo e o alto potencial para gerar dependência química, faz do crack a droga que tem causado as consequências mais nefastas na sociedade. A substância atinge de forma grave e direta a saúde física e mental dos usuários, destrói de forma muito rápida laços familiares e relações sociais e tem consequências ainda no aumento das taxas de criminalidade, violência e outros problemas sociais.

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