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Dona Jacira: uma mulher muito além do Amor

Em uma entrevista que é uma verdadeira lição de vida, Dona Jacira conta como sua casa tornou-se o lar e a família de inúmeras crianças e adultos

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Se não fosse conhecida como o“Lar da Dona Jacira”, a casa localizada no bairro Lar Paraná, em Campo Mourão, poderia muito bem ser identificada como uma residência familiar como tantas outras. E de fato, o é. Em uma entrevista sensível e inspiradora, dona Jacira Bueno Machado conta sem vaidade algumas histórias de uma vida dedicada em proporcionar amor e uma família a crianças e adultos que por diversas razões acabaram longe de seus parentes consanguíneos.

Por telefone, dias antes, a entrevista quase foi negada. Não por má vontade por parte de dona Jacira, mas sim porque ela não gosta de aparecer. É que o que ela faz, o faz de coração, sem esperar por aplausos. Depois de uma certa insistência por parte de quem acredita que histórias como a dela merecem ser contadas, dona Jacira conseguiu algumas horas de seu corrido dia-a-dia para falar um pouco sobre como a sua “grande família” – como se refere às suas crianças – foi formada.

“As pessoas me perguntam: – ‘a senhora fez promessa?  a senhora imaginou?’, nunca! simplesmente aconteceu”, fala sobre o início de sua caminhada por volta de 1968. Trabalhando como enfermeira em um hospital da cidade, Jacira começou recebendo em sua casa crianças em tratamento médico. Com o alto índice de analfabetismo na época, principalmente entre trabalhadores do campo, muitas mães recorriam a ela por não saber administrar a medicação dos filhos.

Em pouco tempo sua casa foi se tornando referência no município. “Aquela época não existia Conselho [Tutelar], então o pessoal do fórum me encaminhava recém nascido, aí depois o juiz arrumava família para acompanhamento, para ver se adotava aquela criança ou não, e aconteceu muitas vezes da criança ser doente, a família não querer e eu acabei adotando. Hoje são meus filhos!”, conta.

Ainda assim, o amor pela família biológica sempre foi incentivado por ela, inclusive com visitas das crianças durante período de férias às famílias que se propõem e se estruturam para isso. “É para que eles tenham a história da vida deles, porque não é só a minha história que eu passo pra eles, eles têm que saber das raízes deles, da família deles, porque o que faz o ser humano é a infância que teve”, explica rememorando por algumas vezes a sua própria infância.

Questionada sobre quantas pessoas já passaram pela sua casa ao longo desses quase 50 anos, ela afirma não ter ideia. “O ser humano é muito orgulhoso, ele tem mania de se orgulhar do tão pouco que ele faz para o seu irmão que sofre, então eu nunca marquei”, justifica. Com 75 anos, ela chega a se deslocar mais de uma vez na semana para Curitiba para levar seus filhos para tratamento. Das 10 “crianças” de sua família – entre 6 e 48 anos – nove fazem tratamento médico, cinco delas na capital.

Duas funcionárias completam a família de 16 pessoas cujas despesas são pagas pela aposentadoria de enfermeira de dona Jacira e doações que recebem espontaneamente de empresários e amigos. Algumas entidades e empresas da cidade também realizam eventos beneficentes para ajudar a sua grande família. “Agradeço todos os dias de coração as pessoas que me ajudam”, diz.

Quando olha para o seu passado, diz que, assim como toda mãe, sente uma satisfação muito grande em relação aos caminhos seguidos pelos seus filhos. Mesmo com todos os seus feitos, ela afirma não ter a sensação de dever cumprido “eu ainda tenho muito o que fazer, acho que eu ainda vou ter que viver mais um 70 anos”, conta sorrindo. Ela, que é espirita, explica que no que depender de sua vontade, seu trabalho continuará mesmo depois que seu corpo material não estiver mais aqui.

Adepta da ideia de que o valor da vida está na solidariedade e no amor pelo próximo, traz humildade na reflexão sobre a própria vida: “Eu acho que eu fui muito feliz, feliz por poder fazer alguma coisa e fui infeliz por não poder servir tanto como eu desejaria”.

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