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Polícia

Greve gera confusão envolvendo apresentadores de tv e acaba na polícia

Paralisação dos caminhoneiros foi pano de fundo para o atrito; boletim de ocorrência por ameaça foi registrado na 16ª SDP

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Sem liderança definida e sem pautas prioritárias pré-estabelecidas a paralisação nacional de caminhoneiros acabou abrigando, mesmo a contragosto dos profissionais, uma gama extensa de reivindicações. Parte delas que até mesmo os grevistas desconheciam.

Houve a presença de intervencionistas, de grupos de “Fora Temer” e até de apoio a Bolsonaro e Lula. Nos municípios, a pauta resvalou para discussões locais, fugindo de interesses da categoria.

Em Campo Mourão, a paralisação gerou uma confusão inusitada. Tendo o movimento de caminhoneiros como pano de fundo, dois apresentadores da televisão local e o administrador de uma página no Facebook – que atua divulgando principalmente ocorrências policiais ao vivo – trocaram acusações e o caso acabou sendo registrado na polícia.

Dione Correia, da página Hora Certa– uma das páginas mais acessadas da região sobre ocorrências policiais – procurou a 16ª Subdivisão Policial para registrar boletim por ameaça. O acusado é o apresentador Aldery Ribeiro, titular do programa “TV em Ação” , transmitido em parte da cidade pela TTV Carajás, emissora educativa comandada por familiares do prefeito Tauillo Tezelli.

A confusão

A confusão entre Ribeiro e Correia teve inicio com uma fala do apresentador Ricardo Borges em seu programa, transmitido pela TTV. Borges, que também ocupa o cargo de assessor de imprensa do município, teria falado sobre a possibilidade de caminhões carregados com oxigênio estarem sendo bloqueados nas estradas por grevistas.

Ao vivo, na terça-feira (22), o apresentador afirmou: “hoje barraram um caminhão de oxigênio que abastece o hospital Santa Casa..caminhão de oxigênio que ia para Santa Casa foi barrado”. Este trecho da fala foi compartilhado em redes sociais e aplicativos de mensagens.

O vídeo do apresentador foi mal recebido por caminhoneiros. Várias pessoas passaram a atacar Borges no perfil do programa mantido no Facebook, acreditando que ele estaria prejudicando o movimento de caminhoneiros com informações falsas.

O apresentador chegou a publicar uma nota de esclarecimento, negando que tenha falado que “os caminhoneiros envolvidos no movimento estariam dificultando a passagem de veículos que transportam oxigênio, medicamentos, entre outros“.

Complicando ainda mais a situação do apresentador, Dione Correia fez uma transmissão ao vivo, no local onde estavam os caminhoneiros, repudiando a fala do apresentador e negando a informação de bloqueio de caminhões de medicamento. Sem citar o nome de Borges, o administrador da página Hora Certa – opositor declarado ao atual governo de Tauillo Tezelli, integrado pelo apresentador – disse que a informação divulgada colocava a população contra os caminhoneiros.

Conversas no Whats

A posição adotada por Correia irritou o apresentador Aldery Ribeiro. Ele e Borges atuam no mesmo canal. Através de mensagens enviadas no aplicativo de mensagem WhatsApp, Ribeiro teria questionado a atuação de Correia, afirmando que ele estaria tentando jogar os caminhoneiros contra Borges e equipes da tv local. O i44 News teve acesso a troca de textos entre eles.

Ribeiro teria recomendado “cuidado” a Correia, acrescentando: “mexa comigo e vc vai me conhecer”. Em uma das mensagens, o apresentador diz ter conhecimento sobre uma suposta “ficha” do administrador do Hora Certa e complementa: “na escola que vc estudou já fui expulso, vc bem sabe disso”. As frases foram interpretadas por Correia como ameaça contra sua integridade e o caso foi levado para ser resolvido na esfera policial, com o registro da ocorrência.

“Ameaças”

Dione Correia explicou que a transmissão ao vivo, foi realizada a pedido do grupo de caminhoneiros. “Fizemos uma matéria porque a manifestação foi pacífica e isso estava prejudicando a imagem dos motoristas”, diz ele.

Ele acredita que houve “ameaças” por parte de Ribeiro nos textos enviados e também de Borges.

“Ricardo Borges me mandou uma mensagem: ‘Continue batendo’. Para mim, isso é uma ameaça”, relata Correia, consciente de que “bater”, no jargão jornalístico, é um termo frequentemente utilizado como sinônimo de “criticar”.

No boletim de ocorrência, no entanto, não foi mencionado o nome de Ricardo Borges.

Fala, não fala

Procurados pelo i44 News, Borges e Ribeiro conversaram inicialmente por telefone com a reportagem. Borges chegou a aceitar a gravar uma matéria. Procurado na prefeitura, no entanto, recuou e não foi localizado mais. Ribeiro disse que conversaria com Borges e depois decidiria se gravaria entrevista. Não houve retorno.

Por telefone, Borges disse que sua fala foi editada. “Me detonaram no Facebook”, disse ele. O apresentador acredita que houve motivação política para o ato de Correia.

Ele explicou que recebeu uma ligação de uma funcionária da Santa Casa informando que uma caminhão de oxigênio, com destino a Campo Mourão, estava parado em um bloqueio em Londrina e que a comida da unidade de terapia intensiva neonatal havia sido buscada em Cascavel. “Foi isso que falei. Mas cortaram tudo o que eu disse e só divulgaram uma parte para me jogar contra os caminhoneiros”.

O apresentador negou qualquer contrariedade com a greve. “Sou filho de caminhoneiro. Meu pai sustentou a família durante 30 anos em cima de um caminhão. Não posso ser contra eles”.

Para Borges, a ação foi orquestrada. Ele diz que o vídeo “editado” também foi divulgado no perfil de um funcionário da Câmara Municipal, que ocupava cargo de confiança na gestão anterior. O apresentador não citou o nome do servidor.

Na conversa por telefone, Ribeiro assumiu que enviou as mensagens para Correia e acusou o segurança de “mau-caráter”. No entanto, durante apresentação de seu programa , nq segunda-feira (28) , Ribeiro foi mais além em sua fala, mas não citou o nome de Correia.

Insinuou que “algumas pessoas” se apresentam indevidamente como imprensa. Citou a suposta de uma “lei de imprensa. Um código que determina o que é trabalhar na imprensa”. Falou ainda que “a polícia e autoridades deveriam questionar “pessoas que abrem uma página no Facebook e se intitulam como membros da imprensa”.

Em recado indireto, sem nominar Correia, o apresentador disse que existem “alguns bandidos, alguns lobos, travestidos em pele de cordeiro que querem se passar como defensores de uma causa que à vezes não o são”.

Durante o programa, Ribeiro fez questão de frisar que defendia o movimento dos caminhoneiros.

Imprensa

A informação sobre a existência de uma lei que regula a atividade de imprensa, divulgada por Ribeiro em seu programa, está incorreta. A chamada Lei da Imprensa, editada no período militar, foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) há cerca de nove anos.

Em julgamento histórico, em abril de 2009, ministros do STF decidiram tornar sem efeitos a totalidade da lei ao concluírem que o texto, editado em 1967, era incompatível com a democracia e com a atual Constituição Federal. Para o STF a Lei de Imprensa era inconstitucional. Jornalistas atualmente respondem por seus erros com base nos códigos cível e penal, como qualquer cidadão.

No ano passado, o i44 News questionou o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná (SindiJor-PR) sobre a atividade exercida por Dione Correia e outros pessoas em páginas semelhantes espalhadas pelo país.

O presidente do SindiJor-PR, Gustavo Henrique Vidal, afirmou que o trabalho de Correia, não pode ser interpretado como jornalismo. Vidal explicou que o Facebook não é um meio jornalístico, mas sim uma rede virtual de relacionamentos, similar a um blog pessoal.

Mesmo assim, Correia pode desenvolver esta atividade, na opinião de Vidal, como forma liberdade de expressão garantida pela Constituição.

O presidente do SindiJor, considera que iniciativas de cobertura policial realizadas por pessoas sem formação em jornalismo são um reflexo da precariedade que a profissão de jornalista enfrenta atualmente. Dificilmente um jornalista realizaria o trabalho sem remuneração e evitaria se expor aos riscos inerentes desta atividade.

Borges e Ribeiro são advogados, não possuem formação acadêmica em Jornalismo, mas exercem há vários anos a atividade de apresentador de televisão na cidade.

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