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Comportamento

Sincero, Pai de Santo revela que “trabalho” para trazer pessoa amada “não é 100% garantido”

Cartomante que atende “gente importante” de Campo Mourão, cobra caro e diz que pode fazer “amarração” em menos de 24h

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Para aqueles que sofreram uma desilusão amorosa e querem reatar o relacionamento, a promessa é mais que tentadora. Pais-de-santo e cartomantes sabem exatamente que os romances nem sempre são para vida toda e que o fim de um namoro ou casamento, não raras as vezes deixam as pessoas atormentadas.

De olho nos corações despedaçados, eles distribuem folhetos, afixam cartazes nos postes e, agora conectados, postam mensagens nos grupos de classificados de redes sociais garantindo: “Trago a pessoa amada em 3 dias” ou “Trago o seu amor de volta”.

Alguns vão mais longe e anunciam a “amarração” da pessoa amada para toda a vida e dizem que o amado ou amada pode voltar em até 24 horas. Com o lado emocional abalado, muitas pessoas – a maioria mulheres – partem para crença no sobrenatural.

Em uma casa simples no Conjunto Mendes, na área periférica de Campo Mourão, Pai Miltinho recebe cerca de 50 pessoas mensalmente. A maioria pretende o retorno do amor de sua vida. Parte delas, na tentativa de se precaver, pedem a “amarração” de quem ainda está ao lado.

O babalorixá atende a todas, mas para decepção de algumas já avisa no primeiro atendimento que o prazo de três dias é muito curto, como afirmam os anúncios. Ele usa de sinceridade: “o tempo depende de cada um, às vezes, são sete dias ou sete meses. Aquele que fala que em três dias traz a pessoa de volta, pode sair fora porque não é verdade”, diz ele, complementando: “quem ‘fala’ o tempo são as entidades. Não é do dia para a noite. A gente não faz milagre, e nem os orixás. Se a pessoa merecer, tiver fé, ela vai receber”.

Mas, realmente é possível a volta da pessoa amada ou da “amarração” dela?

Pai Miltinho não garante uma certeza, mas diz que os “trabalhos” funcionam para a maioria dos pedidos. “Não é 100% garantido. A pessoa tem que se esforçar também”, fala ele recomendando paciência.

O babalorixá acredita que alguns relacionamentos são desfeitos por interferência direta dos “guias” e que estes entes espirituais podem invocados e agradados para mudar de posição.

Mas quem se dispõe a fazer o pedido do “trabalho”, precisa estar consciente sobre mudanças para manutenção do relacionamento. “Não adianta depois continuar brigando, maltratando a outra. A pessoa também tem o seu lado para fazer dar certo”.

Quanto custa para “trazer o amor de volta”? Pai Miltinho desconversa. Diz que para benzimentos e orações não cobra nada. Mas, o “trabalho” tem custo para pagar o material a ser utilizado. Ele diz que o valor depende de cada situação e não dá muitos detalhes sobre o que será adquirido para agradar espíritos. No entanto, não fala em números em momento algum. “Se a pessoa quiser participar do ritual junto comigo, para ver que está sendo usado tudo certinho, pode ir também. É bem aberto”, diz ele.

O Pai de Santo explica que para que a pessoa volte para quem o procura, ele faz uma ‘’quebra de anjo da guarda”. Com isso, garante, quem deixou o relacionamento fica desesperado e e só se sente tranquilo ao reatar o relacionamento.

Cartomante

Ao contrário do Pai de Santo Miltinho, procurado quase sempre por gente humilde, com algumas poucas exceções, uma cartomante que diz atender pessoas “importantes” de Campo Mourão, fala que a “amarração” e volta do amor perdido é garantida. Ela vai mais além: dependendo do caso, “a pessoa volta em menos de 24 horas. Depende do ânimo dos anjos da guarda deles“, afirma, deixando subentendido que também conta para isso o valor gasto para isso.

Longe da simplicidade do pai-de-santo, a mulher diz que suas “consultas” só ocorrem com hora marcada e através de recomendação. Ela não faz anúncios de sua atividade. Mesmo assim, tem vasta clientela entre “mulheres e homens da sociedade” mourãoense. Com muita resistência, aceitou falar com a reportagem do i44 News. Pediu, no entanto, que seu nome e imagens não fossem publicados. “Não posso me expor”, alega.

A mulher também evita falar em valores. Diz que algumas “amarrações” podem levar meses e custar milhares de reais. “Mas a pessoa pode ter certeza que o amor volta”, promete.

Semelhante a explicação do babalorixá, a cartomante diz que para reatar os relacionamentos, precisa atuar com os “anjos de guarda dos dois lados, destruindo a linha de separação”.

Para isso, fala que constrói uma mandala (objeto circular considerado como símbolo de cura e espiritualidade e utilizado por hinduístas, budistas e por índios norte-americanos da tribo Sioux). Usa ainda flores como hibisco, tulipas, crisântemos e flor de amendoeira. No “serviço” ainda constam essências orientais e frutas nobres e exóticas.

Pai Miltinho

Pai Miltinho é o nome religioso de Luiz Hamilton Rodrigues, 46 anos. Ele conta que aos sete anos de idade, a avó morreu e pela passou a vê-la em sonhos, conversando. Desde a infância começou a frequentar terreiros e desenvolveu a mediunidade.

Não era o que queria para a vida. Decidiu até lutar contra isso.”Eu tentei largar de tanto que o povo falava que é coisa do diabo. Mas nada melhorou, eu ia à igreja e meus guias trabalhavam comigo, aí voltei. Eu acho que tem que ter mais respeito pelas religiões dos outros”, diz atualmente.

Eletricista e construtor de profissão, Pai Miltinho atualmente está frequentando um curso de metalurgia.“Eu tenho pouco estudo, mas eu procuro ter mais sabedoria, gosto de saber das coisas, aprender. Os trabalhos não são para me dar dinheiro, são para abençoar os outros”, fala ele.

Apesar de reverenciar os “guias”, ele não quer que os filhos sigam sua devoção.“Meus filhos mesmo, eu levo para batizar na igreja, porque eu não quero que eles sigam o caminho que eu sigo. É um caminho muito perseguido, muito julgado”.

Levantamento do Ministério dos Direitos Humanos (MDH) que analisou denúncias de intolerância religiosa no Brasil revela que os números de casos vêm crescendo. Entre janeiro de 2015 e o fim do primeiro semestre de 2017, o disque 100, canal que reúne as denúncias, recebeu 1.486 queixas. Isto indica que o Brasil registra uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas. Segundo o levantamento do MDH, as religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé são as mais atingidas, com 39% das denúncias.

Mesmo com o quadro preocupante revelado pelos dados do MDH, Pai Miltinho diz que já não se importa com o que as pessoas falam sua opção religiosa.

“Já passei por tanta coisa na minha vida. Fui criado sem pai, usei drogas, sofri um acidente e entrei em coma profundo. Meu preto velho me livrou de tudo isso. Hoje sou feliz, vivo pela minha família, tenho a minha própria casa, meu carro que é velho, mas é meu, minha moto, esposa, filhos e minha mãe com saúde. Isso pra mim é felicidade!”.

Na casa amarela, em uma rua do Conjunto Mendes, o intenso odor exalado por velas e incensos atravessa os cômodos e invadem a rua. Pai Miltinho mora no local com a esposa e três filhos. Brincando, diz que não precisou de qualquer “trabalho” para manter a mulher ao lado, mas não descarta recorrer aos “guias” em caso de necessidade.
“Já faz trinta anos que eu estou com minha esposa. Quero morrer com ela. Se um dia ela for embora, eu faço um ‘trabalho’ para trazer ela de volta”.

 

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