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Vida e Estilo

Uma policial de corpo escultural!

“Os caras ficam intimidados, uma mulher forte e ainda por cima com arma na cintura!”, diz a atleta

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O público que vai estar presente na 49ª edição do Campeonato Brasileiro de Fisiculturismo e Fitness que será realizado no próximo final de semana em Ribeirão Preto (SP) certamente ficaria surpreso se soubesse a profissão de Quezia Catarino, 33 anos, concorrente na categoria Wellness – onde a avaliação se concentra nas formas exibidas por mulheres com corpo violão, mais afeminados, com destaque para bunda definida e seios avantajados, de acordo com organizadores.

O corpo escultural da atleta, que estará exposto em biquínis no interior paulista, está longe de aparecer na profissão que Quezia desempenha em Campo Mourão, onde mora. Nascida em Goioerê, ela é policial feminina do 11º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Campo Mourão e atua nas equipes de escolta da unidade policial.

O uniforme militar escondendo as curvas, os longos cabelos enrolados sob a boina e arma na cintura não deixam dúvidas sobre o contraste entre atleta e a policial. A convergência entre as duas atividades só ocorrem em um fator: disciplina, requisito fundamental para as duas carreiras.

A paixão pelo fisiculturismo nasceu há três anos.“Eu gostava muito de artes marciais e um amigo me convenceu a intensificar meus treinos e subir no palco para campeonato”, conta Quezia.

Com dois meses de preparação e acompanhamento nutricional, ela subiu ao palco do campeonato paranaense de estreantes. Já nas competições do Campeonato Paranaense de Fisiculturismo, em 2017 e neste ano, Quezia conquistou a terceira colocação, que lhe garantiu a vaga para disputa nacional.

Quezia viaja ao interior paulista neste final de semana com grandes chances de título. Nas seis competições que participou, além da colocação geral na etapa estadual, foi campeã nas disputas da Copa Norte e Copa Oeste de Fisiculturismo.

Com acúmulo de títulos, ela conseguir atrair patrocinadores, conquistando parcerias com uma academia, clínicas de estética, médicos e laboratórios. Afinal, o esporte que pratica traz despesas. “Esse é um esporte bem caro. Você precisa manter dieta, uma rotina de consultas médicas e acompanhamento estético, afinal, você se apresenta em um palco”. Ela calcula que em períodos próximos a competições, os gastos chegam a R$ 2 mil mensais.

Os patrocinadores porém, estão tendo retorno na divulgação das marcas. Somente no Instagram, Quezia já está chegando ao número de cinco mil seguidores.

Para a prática do esporte, Quezia mantém uma rotina de treinos ininterrupta. Todos os dias, às seis da manhã tem início os exercícios. “É difícil conciliar a vida pessoal. A dieta é bastante restrita e alguns amigos não entendem que não posso comer algumas coisas e que preciso dormir nos horários certos”. A categoria disputada por Quezia teve origem no Brasil e atualmente já faz parte das modalidades de competições oficiais de fisiculturismo em todo o mundo.

Soldado PM Quezia

Mesmo que conquiste títulos no fisiculturismo, a atleta não tem dúvida ao apontar: sua prioridade é o trabalho policial. Há seis anos, ela integra o quadro de policiais do 11º BPM, que mantém em sua estrutura 27 mulheres que se dividem nos departamentos de Trânsito, Rotam (Rondas Tático Motorizada), destacamento e Copom (Central de Operações Policias Militares).

A paixão pelo trabalho policial despertou de forma espontânea para Quezia. “Via muitas reportagens policiais, e os profissionais em serviço. Chamava-me a atenção essas pessoas que se colocam em risco para ajudar o próximo”.

Vestir a farda da corporação tornou-se um sonho, que ela conseguiu realizar. Os desafios apareceram na escola de polícia. De uma turma de 100 concursados, havia somente sete mulheres. Apesar das dificuldade ela não se abalou. Formada em Educação Física e, na época pós-graduanda na área, tirou de letra os treinamentos físicos.

Convencer a família sobre a opção, no entanto, foi mais complicado. Os pais temeram pela segurança da filha que se tornou a primeira policial na família. “Quando me viram de farda pela primeira vez, os dois ficaram emocionados”.

Sua atuação na PMPR já lhe rendeu a medalha de Mérito Militar. Mantendo a calma e adotando todas medidas necessárias,conseguiu no desempenho da função salvar três vidas. “Dois deles eram recém-nascidos, que se engasgaram com leite materno e o terceiro era um menino que teve convulsões. Em todos os casos, busquei acalmar os pais e instruir os primeiros socorros da melhor maneira possível”

Machismo

O policial militar Eduardo Nunes de Araújo divide o espaço na viatura do setor de escolta com Quezia. Ela é a primeira soldado feminina com quem ele trabalha diariamente. Araújo que não há qualquer diferença em relação a policiais do sexo masculino. “Desde o começo, sempre frisei que somos iguais. Recebemos o mesmo salário, tivemos o mesmo treinamento e precisamos confiar no nosso colega de corporação”.

O soldado comenta que ele e a colega conversam sobre sua rotina de atleta “Eu sempre gostei do ambiente de academia, então, ela sempre me dá dicas e fala sobre o assunto. Acho bacana que ela tenha esse destaque na área”.

Quezia sabe a visibilidade no esporte atrai a atenção das pessoas. “Hoje, há muitas mulheres no esporte. Tenho muitas amigas atletas e mesmo na academia, muita gente me pede dicas”. Sobre a atenção masculina, a soldado brinca: “os caras ficam intimidados, uma mulher forte e ainda por cima com arma na cintura!”.

Se no esporte ela conquistou respeito através das medalhas, no momento das rondas policiais o distintivo policial não é capaz de inibir o machismo nas ruas.

“Meus colegas sempre me trataram com muito respeito, mas infelizmente, encontro muito machismo na rua, de chegar na ocorrência e ser ignorada ou subestimada. Mas eu sempre me imponho. Estou preparada, sou representante do Estado e estou ali para resolver a situação que encontrar”.

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