Fale Conosco

Especiais

Um motorista, dois cobradores e um trajeto percorrido há mais de meio século

Eles são de uma época em que passageiros viajavam armados e, às vezes, dividiam espaço com cadáveres e animais

Publicado

em

Carlos Ohara
Editor

Matheus Bez Batti
Repórter


Quem viaja atualmente nos confortáveis ônibus Space Bus da Expresso Nordeste
– com carroceria de 15 metros, distribuída em dois andares, com soluções de espaço e ergonomia pensadas para o conforto e segurança ao usuário, com ar-condicionado direcionado e internet a bordo – dificilmente consegue imaginar que o percurso de 205 quilômetros entre Campo Mourão e Guarapuava, alcançados em três horas de viagem, já teve duração quatro vezes maior no passado. No início da década de 50, o mesmo trajeto era percorrido em 12 horas em situação muito diferente da atual.

No pátio da empresa, na área central de Campo Mourão, o interior do modelo Chevrolet Brasil 6500 , é testemunha de uma época em que passageiros viajavam armados, muitas vezes, dividindo espaço com animais e até mortos e,  no dia-a-dia, os motoristas eram obrigados a enfrentar desafios nas estradas de barro do estado, sem saber a hora da chegada.

O número “01” da frota – que possui atualmente 400 veículos, espalhados em 17 garagens pelo País e que opera 80 linhas no Brasil e Paraguai, superando mensalmente 2 milhões de quilômetros rodados – é preservado como relíquia.

A história daqueles dias, resiste nas memórias vivas de três homens.  Germano Boiko  – presidente da empresa e filho do fundador  – ,  motorista de quase todas as linhas operadas pela companhia – . Juarez Teixeira da Silva , assessor operacional –  um dos primeiros cobradores da Nordeste – e  Noel Velozo Braga, assessor financeiro, – que também foi cobrador e vigia no passado.

Reunidos, os três são uma enciclopédia completa sobre o desenvolvimento do transporte de passageiros na região. E a primeira recordação é sobre o nome da empresa.  A ideia inicial era que o nome fosse  “Expresso Noroeste”, região de origem no Paraná. Por erro do cartório, a região foi trocada nos registros e a empresa – uma das líderes da região Sul do País, virou Nordeste.

Aos 72 anos, seu Germano lembra do início da empresa pelas mãos de seu pai, Vassílio Boiko. “Meu pai não sabia nem de onde ele tinha vindo direito” conta.

Filho de imigrantes ucranianos, Vassilio começou a vida como mascate. “Ele pegou uma carroça sucateada, consertou e começou a comercializar produtos para quem vivia longe dos vilarejos” explica Germano.

Na época em que carroça era artigo de luxo, o veículo sucateado, puxado por tração animal serviu para o sustento e mais um pouco. Na época da colonização do município de Pitanga, Vassílio viu a demanda por mantimentos crescer. Empreendedor nato,  aumentou a frota de carroças e mais adiante conseguir comprar um pequeno caminhão Ford 1946, que surpreendentemente se tornou o primeiro ônibus para transporte de pessoas.

Germano explica: “Ele pegou um ônibus antigo, sucateado e cortou a carroceria, colocando em cima do caminhão”. Com capacidade para 12 passageiros, a geringonça passou a fazer a linha: Campo Mourão-Pitanga

Ao lado da mulher, Verônika Boiko, montou um armazém, no município de Roncador. O lugar cresceu rapidamente. O casal então, montou um hotel em Campo Mourão, no centro da cidade. O ano era 1958 e o estabelecimento da família Boiko funcionava como hospedaria, garagem da empresa de ônibus, casa da família e alojamento de funcionários.

Seu Juarez lembra bem dessa época em que era cobrador da empresa: “Dormíamos no sótão. Dona Verônika era como uma mãe para todos nós, até puxava a nossa orelha se chegássemos tarde”.

Prazo de viagem era só estimativa

Uma das primeiras linhas operadas pela empresa foi o trajeto entre Campo Mourão e Guarapuava, no fim dos anos 50.  Era época de estradas de barro. O ônibus dos Boiko saía por volta das 6h da manhã de Campo Mourão e tinha horário de chegada estimada para as 18h. Mas o horário nem sempre era cumprido religiosamente. Se chovesse, o prazo poderia se estender por até uma semana.

O ex-cobrador Noel conta que o veículo tinha capacidade para 25 passageiros sentados. “Geralmente, mais 50 pessoas iam em pé, inclusive o cobrador”.

Germano lembra que o excesso de passageiros era rotina. “Cada família tinha oito ou nove filhos. Os pais colocavam até cinco crianças em dois bancos. Se não coubesse no interior do ônibus, iam em cima da cabine” . O ex-motorista diz que a média de passageiros era mais de 100 pessoas por viagem. “Quem precisava ir, tinha que embarcar, não tinha escolha para nós nem para os passageiros”.

Seu Juarez conta que a bagagem era a mais variada possível. Além das malas, ele precisava assentar os mantimentos dos passageiros: galinhas, porcos e cabras também tinham vez. “Era o que o pessoal tinha. Eram animais que eles vendiam na cidade ou era algo que para eles era um bem”. Pelas portas do ônibus, viram passar as ondas migratórias que colonizaram o estado.

As cargas vivas não eram o mais inusitado do montante de bagagens. Germano cansou de transportar cadáveres. “Se a pessoa morria em um lugar, ia levar para outro de que jeito? No nosso ônibus. Geralmente quando viam o caixão, eu dizia que estava vazio. Um dia, em cima da cabine, um dos passageiros abriu para checar, viu o cadáver e vi pelo retrovisor todos pulando pela estrada”.

Entre as cordas que amarravam as cargas ainda precisava caber um ‘kit da estrada’. Uma caixa de ferramentas com facão, foice, martelo e correntes para as rodas vencerem o lamaçal que a chuva causava. Passageiros desciam, calçavam as rodas com tábuas e empurravam para desatolar o veículo e seguir viagem.

Quando os esforços não eram suficientes, o jeito era dormir na estrada. Para isso, motorista e cobrador viajam com mantimentos especialmente feitos por dona Verônica, que incluía uma lata de comida e cobertas. “Germano sempre dava a comida dele para o pessoal que não pode trazer e dava a coberta para as crianças” , conta o amigo Juarez.

Nas noites na estrada, a equipe fez amigos. Noel conta que já sabiam as casas onde podiam pedir abrigo, água e comida. Juarez diz que a equipe da Nordeste tinha boa fama no percurso: “Quando o povo via o ônibus atolado, mandavam um filho ver quem era e avisavam ‘Se for o Germano e o Juarez, manda vir que eu faço a janta’ .”

A corrida pelos passageiros e o ônibus convocado pelos militares

As melhores histórias não se resumem ao trecho, muitas aconteceram nas rodoviárias. Na década de 60, com as linhas concessionadas de forma precária, os passageiros eram pegos ‘a laço’. Seu Germano conta que havia uma corrida para chegar com o ônibus na rodoviária antes da concorrência. Assim que o veículo abria as portas, o motorista corria já puxando a bagagem dos passageiros para perto da porta.

Foi chegando na rodoviária de Guarapuava, que seu Juarez conta um dos casos mais notórios nos seus anos de estrada. “Vimos um pelotão do exército que fez o ônibus parar. Quando o motorista abriu a porta, o homem a frente da tropa avisou que o ônibus estava sendo convocado pelo exército”.

Para não desobedecer a ordem do militar, os passageiros desceram e o ônibus rumou para Rio Grande do Sul, com o motorista da empresa. Seu Juarez conseguiu escapar “Nunca nem tinha ido para o Sul do país, disfarcei e fugi”. Ele soube depois que o pelotão estava indo para Porto Alegre por conta do golpe de 1 de abril de 1964.

O melhor motorista da empresa


Seu Germano orgulha-se de um título que o tornou afamado até hoje entre os motoristas do pátio: Nunca bateu. “Nem ônibus, nem carro” faz questão de  dizer. Tal posto não era fácil de conseguir, ainda mais no precário Chevrolet Brasil com freio à óleo. “Se acabasse o óleo, o freio era o barranco”.

Ele lembra da primeira viagem de ônibus, que aconteceu sem querer em uma viagem de Campo Mourão para Toledo, onde era, a princípio, cobrador. “Estávamos há uma semana atolados. Quando resolvemos o problema e podiamos seguir viagem, o motorista estava bêbado. Eu tinha 14 anos, mal alcançava os pedais do ônibus. Calcei o assento com um cepo e segui viagem”.

De lá pra cá, seu Germano não largou do volante. Tem uma frota de 14 carros clássicos, que incluem um Ford Rural, Jeep Aero Willys, uma Brasília e o seu xodó, um Chevrolet Bel Air branco que ele dirige há 50 anos.

Do volante do ônibus ele também não larga. Conta que troca qualquer viagem de avião por pela chance de pegar a estrada de ônibus e entrega: “Até hoje, vou para Curitiba no ônibus da empresa e já aviso para o motorista que faço questão de dirigir o final do trajeto”.

A professora que não pagava passagem

Seu Noel sente orgulho de falar do trabalho como cobrador. Natural de Silvianópolis, sul de Minas Gerais conta que veio para Campo Mourão ainda criança, em um caminhão ‘pau de arara’. Viajou de ônibus pela primeira vez com a empresa. “Para mim, era uma honra usar aquele uniforme com quepe”. O mais brincalhão dos três, seu Juarez completa: “A gente descia do ônibus com aquele uniforme de cobrador e não tinha menina que não olhasse”. 

Em uma época que pistolas calibre 38 eram mais comuns que carteiras de identidade, os cobradores precisavam lidar com o temperamento de passageiros agressivos. “Você cobrava e o cara puxava o revólver, o que a gente podia fazer? Os passageiros é que nos davam segurança”. Já que só cabiam seis balas no tambor, os viajantes se reuniam e mandavam o desordeiro porta a fora.

Nem só de perigos era feito a estrada. Com o cotidiano atribulado a bordo do ônibus, sobrava espaço para o romance. Seu Juarez conheceu a esposa, Edna, no trabalho. “Ela era professora e pegava ônibus para dar aula”. O amigo, Germano entrega. “Juarez pagava a passagem dela e ainda escrevia ‘bilhetinho’”. O namorico deu frutos, Juarez casou com Edna, teve três filhos, todos afilhados do compadre Germano, e na semana passada fizeram bodas de ouro.

Seu Noel também teve uma história parecida. Começou como cobrador na Nordeste e sempre zelou pela honestidade. “Me lembro que na primeira viagem que fiz, trouxe o dinheiro para dona Verônica, que na época era caixa da empresa. Ela se surpreendeu com o montante. Na verdade era o valor normal das viagens, mas tinha muita gente desonesta, que roubava mesmo”.

Com isso, o mineiro ganhou a confiança da família Boiko. Passou a trabalhar como vigia da garagem e, posteriormente, tornou-se gerente de arrecadação financeira. Quando fiscalizava a saída e entrada dos caixas, conheceu dona Zilda, gerente de limpeza, com quem teve dois filhos. “Morávamos em uma casa aqui no pátio. Meus filhos cresceram aqui na garagem. Quando era menino, meu filho, Marcos, engraxava os sapatos dos motoristas” conta seu Noel. Hoje, Marcos, é gerente regional de uma rede bancária em Maringá.

Três amigos e o trecho até aqui

Na hall da sede da empresa em Campo Mourão, com os três amigos reunidos depois da volta no tempo a bordo do Chevrolet Brasil, os três fazem o balanço final do trajeto percorrido nos mais de 50 anos na empresa. Seu Juarez entrega: “Com certeza valeu a pena. Prova disso é que a gente torcia pra chover, para ficar mais tempo na estrada porque sabíamos que, apesar da dificuldade, ia ser divertido e voltaríamos com muita história para contar”.

E contaram para o i44 News, acompanhados pelo olhar orgulhoso de Gustavo Boiko –  filho de Germano e o primeiro na linha de sucessão na presidência –  da empresa que hoje acompanha em tempo real na tela do monitor , via dados de GPS transmitidos online –  o percurso de cada ônibus, incluindo o que faz a viagem entre entre Florianópolis, em Santa Catarina, até Assunção, no Paraguai. 

Comente

Comentários

Copyright®i44 News. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do i44 News (redacao@i44.com.br).