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Comportamento

Paola e Camila: jovens, universitárias e pioneiras no Corpo de Bombeiros da cidade

Quartel local ainda está em fase de adaptação para integrar mulheres após treze anos da lei que autorizou ingresso delas

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A sirene toca na sede do Corpo de Bombeiros em Campo Mourão. A equipe de plantão está a postos e é rápida na resposta ao alarme. Em meio aos demais soldados, uma dupla corre, abre os armários números 15 e 25 da garagem do quartel. Em poucos segundos, vestem o macacão anti-chamas, prendem os cabelos, colocam a touca balaclava para proteger da fumaça, o capacete, coturnos impermeáveis e, a bordo do caminhão autobomba, estão prontas para mais uma ocorrência.

Há pouco mais de um ano, essa tem sido a rotina das soldados Paola Notoya Morales e Camila Rafaeli GesualdoAs duas ainda são consideradas “novatas” entre os colegas, mas já estão na corporação a tempo suficiente para fazer história. São as primeiras soldados do Corpo de Bombeiros em Campo Mourão. Atualmente, a dupla feminina integra a equipe operacional do quartel, formado ainda por outros 37 soldados que respondem a dois oficiais no comando.

Ambas ocupam postos de soldados operacionais, atuando conforme a escala. Desempenham funções internas, proferem palestras educativas em escolas e atuam no combate a chamas, socorro a vítimas de acidentes ou até em mergulho em busca de cadáveres.

Inclusão feminina

Treze anos após uma lei estadual permitir a inclusão de mulheres no Corpo de Bombeiros do Paraná, os quartéis da corporação – em muitas cidades do interior – ainda não estão preparados para presença feminina.

Respeito elas já conquistaram entre os colegas de farda. No entanto, a centenária instituição, criada em 1912, ainda tem regras que dificultam que um maior número de mulheres ingressem na profissão e ocupem espaços mais altos na  hierarquia.

Camila e Paola vivenciam, na prática, a demora na adaptação da corporação. Designadas para Campo Mourão, chegaram na cidade e não encontraram no quartel um alojamento específico para mulheres, como ocorre na capital. 

O tenente Anderson Feijó – que comanda o Corpo de Bombeiros na cidade – explica que a ausência do local é reflexo das normas da própria corporação.

Até 2004, mulheres estavam impedidas de participar do concurso. A partir de 2005, nomes femininos passaram a surgir nos editais de convocação, ainda de forma tímida.

Feijó lembra que em Maringá, onde atuou,  só houveram mulheres no quartel a partir de 2010. “Vimos a chegada delas da melhor forma possível. Percebemos que era uma necessidade da corporação. Nos momentos de socorro a vítimas por exemplo, percebemos uma necessidade normal das mulheres em se sentirem mais confortáveis com outras mulheres”.

Há, ainda hoje,  uma cláusula em vigor nos editais de concurso de ingresso ao Corpo de Bombeiros do Paraná, delimitando  uma cota máxima de 50% de mulheres a serem convocadas: “Atingido o limite previsto não serão nomeados candidatos do sexo feminino independente da classificação final obtida no certame”. Em caso inverso, se as primeiras posições forem conquistadas por homens, só eles entram. É o que diz o texto.

Improviso

Em Campo Mourão, com a chegada de Camila  e Paola o jeito foi improvisar para que as duas pudessem dispor de um espaço para o descanso entre as ocorrências. Uma sala de instrução do quartel foi transformada em alojamento.

“As carteiras foram amontoadas para dar lugar para duas camas. Por alguns meses, dormimos ao lado do quadro negro” relembra a soldado Paola com bom humor. O banheiro também foi adaptado, utilizando um lavabo do corredor.

O alojamento das duas ainda ocupa o mesmo local, mas as soldados deram um jeito de deixá-lo organizado. Mesmo sendo instalações militares, elas conseguiram transformar a sala improvisada em um ambiente mais aconchegante.

O comandante diz que a  situação deve melhorar em breve. Segundo ele, já existe licitação a ser publicada para criar um alojamento feminino completo no quartel, já preparando a instalação para chegada de outras mulheres. “Há uma deficiência estrutural no nosso quartel e ela precisa ser revista. As mulheres são uma realidade na corporação e como todo soldado, precisam ter mais conforto e segurança para desempenhar sua função”.

Amigas

Em uma pequena bancada, na parte dividida para a soldado Paola, de 23 anos, repousa um exemplar de “O conto da Aia”, da escritora Margaret Atwood, uma ficção feminista sobre um futuro em que as mulheres tornam-se escravas de uma ordem religiosa. Do lado da soldado Camila, de 26 anos, há uma figura de Nossa Senhora Aparecida, com acabamento brilhante.


Com particularidades tão distintas, as duas soldados se tornaram amigas ainda na época do concurso, prestado em Maringá em 2011.

“Eu sabia da cláusula de restrição de mulheres, então, conferi a lista de candidatas, para saber se eu tinha chance. Adicionei algumas nas redes sociais para que pudéssemos acompanhar juntas as convocações” fala Camila. Até a convocação dos primeiros nomes foram quatro anos de espera. Neste período, as duas se tornaram amigas e conversavam sobre o que as motivou para que prestassem o concurso.

Camila é natural de Floresta. O pai é agricultor. A mãe seguiu a mesma profissão das irmãs, é professora. Por muito tempo, uma carreira na docência também foi o sonho de Camila. A jovem formou-se em Letras e até ser convocada, lecionava em escolas estaduais. “Eu tinha amigos que eram bombeiros, todos homens. Algumas amigas queriam tentar o concurso. Achei uma possibilidade profissional interessante”.

Com a convocação, precisou contar para a família que se tornaria militar. “Foi um susto para eles. Sou de uma família grande, mas eu sou a primeira militar da família”.

Já Paola, natural de Peabiru, tinha o desejo de ser bombeira desde menina. O pai, Paulo Sérgio Morales, dedicou sua vida a corporação. “Desde pequena, eu via meu pai voltar do trabalho com a farda. Achava aquilo o máximo”.

Filha única, não conseguiu convencer o pai da carreira que escolhera no primeiro momento. “No começo, ele não queria, por conta do perigo, claro. Hoje, ele está muito orgulhoso. Sempre vem me visitar aqui no quartel” conta aliviada.

Universitárias

A disparidade entre homens e mulheres na corporação já era perceptível na escola de bombeiros. Em uma turma de 25 recrutas, havia somente quatro mulheres. As duas contam que já ouviam comentários mal intencionados na época da graduação, o que causou receio de como seria o cotidiano antes mesmo de começar a atender as ocorrências.

“Pensamos que enfrentaríamos um tipo de barreira com nossos colegas aqui no quartel. Conversávamos bastante sobre isso. Por sorte, eles nos abraçaram. Nos trataram com igualdade e respeito, como a qualquer outro recruta. Hoje, somos uma família” conta Paola.

Camila relembra um fato engraçado dos primeiros dias no quartel. Há uma tradição na corporação em que os recrutas são presenteados com fardas de soldados mais experientes. As recrutas não podiam quebrar o costume. O jeito foi adaptar as vestimentas recebidas.

No alojamento, as duas exibem com orgulho as fardas dispostas no cabideiro que trouxeram de casa. No dormitório, elas também mantém um pequeno espaço de estudos. Em uma mesa de plástico, conseguem recapitular as matérias da faculdade entre um chamado e outro.

Paola cursa o último ano de Engenharia Civil. Escolheu o curso no tempo de espera da convocação. “Tem tudo a ver com meu trabalho aqui dentro. Faço parte do setor de vistoria e análise de projetos de incêndio. Nosso trabalho é assegurar que as estruturas possibilitem segurança em caso de incidentes”.

Camila está no primeiro ano de Medicina e conta que a inspiração para buscar a formação na área da saúde nasceu por conta de uma ocorrência. Ela estava escalada como socorrista e atendeu uma ocorrência de uma criança com vias aéreas obstruídas. “Fizemos as manobras necessárias mas elas não surtiam efeito. O problema é que a criança tinha uma patologia. Possuía um defeito nasal congênito”.

A vítima foi socorrida por uma equipe do Samu que tinha aporte técnico necessário para fazer uma intervenção invasiva. Feijó lembra que o atendimento do Corpo de Bombeiros se limita aos primeiros socorros: “Nosso trabalho é atender traumas, remover vítimas nos acidentes, conter sangramentos e encaminhar para atendimento médico”.

Na ambulância, Camila decidiu buscar a formação em Medicina. “Eu queria fazer mais por aquela vítima.” Na primeira tentativa, conseguiu a vaga desejada. Quando viu seu nome na lista, estava de plantão e os colegas, para parabenizá-la decidiram promover um singelo trote. “Parabéns aqui no quartel é com banho de jato de água e foi assim que eles me parabenizaram” brinca a soldado.

Para equilibrar a profissão com a vida acadêmica, as duas precisam de determinação e ajuda dos colegas. “Conseguimos trocar de turno com eles, mas para evitar faltas ou perder provas, a gente precisa dobrar ou até triplicar plantões” explica Paola.

“Engraçadinhos”

Além de fazer parte da dupla das primeiras soldados femininas do Corpo de Bombeiros da cidade, Camila foi mais além. Está habilitada para dirigir o caminhão autobomba do quartel. A ousadia ainda causa  surpresa na cidade.

Entendemos que para Campo Mourão, ver mulheres fardadas de bombeiro ainda é algo novo. Na semana passada, após uma ocorrência de combate a fogo, eu e Camila passamos para abastecer a viatura. No posto, as pessoas nos olhavam como se fossemos de outro mundo.”

Se no quartel, a presença das soldados não causa mais espanto entre os colegas, o mesmo não acontece nas ocorrências. “Já aconteceu de eu chegar em uma unidade médica com uma vítima e um enfermeiro tentar tomar a maca das minhas mãos, como se eu não tivesse força para carregar a vítima”, conta Camila.

As duas costumam ficar de plantão nos fins de semana, acabam atendendo ocorrências em saídas de baladas, festas e bares. São por volta de dez chamados por turno. Vítimas embriagadas que precisam de algum tipo de socorro são figuras frequentes nessa rotina.

O treinamento do Corpo de Bombeiros também inclui técnicas de combate e defesa pessoal. Elas comentam que algumas vezes é necessário empenhar força física para conter homens que tenham atitude invasiva ou violenta durante ocorrência.

“Já perdemos as contas de quantos engraçadinhos já nos pediram em namoro. A gente tenta ter jogo de cintura, mas não podemos tolerar falta de respeito. Estamos aqui para atender vítimas e salvar vidas”, diz Paola.

 

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