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A memória viva de uma Mulher que esteve à frente de seu tempo

Pioneira de Campo Mourão, ela dirigia caminhões, negociava carregamentos de madeira e criava a família em uma época em que o pensamento dominante era a crença que o trabalho da mulher fora de casa destruiria a família

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Carlos Ohara
Editor

Na década de 50, a sociedade da época acreditava que a o trabalho da mulher fora de casa destruiria a família, tornando os laços familiares mais frouxos, além de debilitar a raça.

No pensamento – inclusive de alguns intelectuais – se a mulher entrasse no mercado do trabalho, elas deixariam de exercer o papel de mães dedicadas e esposas carinhosas, se desinteressando completamente pela maternidade e casamento.

Até mesmo os meios de comunicação propagavam a ideia: “É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido” dizia a reportagem do Jornal das Moças, em 1957. Em 1955, a revista Querida era direta em sua manchete: “O lugar de mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza”, publicava na capa.

Quase seis décadas depois, recostada na rede em sua casa, na área central de Campo Mourão, a gaúcha Égile Perdoncini Pinto, 92 anos, lembra bem destes tempo. A lembrança a faz deixar um sorriso agradável.

Égile ainda estava saindo da adolescência no início da década de 50. Longe do padrão ideal da mulher pregado pela sociedade – da mulher que obedecia às ordens e ficava em casa – ela ousou e desafiou todos os conceitos e preconceitos. Não apenas trabalhava, – desde criança – como escandalizou as amigas e a família quando encontrou seu amor: o guarda florestal Cláudio Silveira Pinto.

Já considerada como “menina de muitas posses” – como lembra a ex-deputada Amelia Hruscka que compartilhou aqueles tempos – Égile não titubeou ao encontrar Cláudio que viera à Campo Mourão transferido de Morretes, no litoral do estado. Se apaixonou e com ele formou uma das mas mais tradicionais famílias pioneiras de Campo Mourão.

Gaúcha dos Pampas

Égile nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 1926. Veio ao mundo no pequeno povoado conhecido como Colônia Weirich, de colonização germânica. Foi criada com os costumes rígidos da época. A família de 12 irmãos, era de origem italiana. Os afazeres domésticos aprendeu com as irmãs.

A madeira, que era o ganha-pão da família, no entanto, era o que que atraía a atenção de Égile. Tinha tino – como se dizia na época, para o negócio. Aprendia rápido tudo que se referia a serraria e chegava, sem querer, a causar ciúmes nos irmãos e irmãs.

O pai João Batista Perdoncini aprovava a desenvoltura da filha e mostrava uma certa predileção pela menina.“Eu amava madeira e aprendia rápido, sabia identificar tudo. Conhecia desde o processo de corte até negociar uma carga de dormentes” lembra-se ela.

O trabalho, considerado coisa de homem na época, era inerente do modo de ser da gaúcha. “Não me lembro que idade eu tinha, mas eu era uma criança. Sempre trabalhando”, conta ela. Ainda na infância, enquanto estudava na escola germânica nos pampas gaúchos.

Chegou antes da luz

Era o final dos anos 40. O negócio de corte de pinheirais no solo gaúcho estava entrando em baixa. As árvores estavam acabando nos pampas. “Nossa mudança aconteceu porque tinha acabado o pinhal e só sabíamos viver da madeira” rememora Égile.

João Perdoncini decidiu tentar a sorte em outras paragens. Primeiro foi para Santa Catarina com a família. Lá conheceu um homem que iria definir o destino final da família é que até hoje é muito querido por Égile.

Também gaúcho, ele era conhecido por sua generosidade e espirito empreendedor. Belin Carolo – o homem que construiu o hotel Santa Maria e que doou o terreno onde está instalado a sede da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e que tem seu nome gravado no ginásio de esportes daquele centro educacional.

Carolo deu a dica: o futuro estava na região de Campo Mourão. João acreditou. Reuniu a família, colocou todos na carroceria de um velho caminhão e se tocou inicialmente para Roncador, na época ainda distrito de Campo Mourão.

Com a ajuda família e, principalmente de Égile, começou o corte da madeira da região. “Ainda era uma mata fechada que tínhamos de abrir no braço, com serrote e músculo”.

Em pouco tempo, vieram para Campo Mourão. Chegaram antes mesmo da energia elétrica na cidade. A luz era de lampiões.

Égile trabalhava a semana toda. Aos domingos ia na igreja e voltava para trabalhar em casa. Foi num destes finais de semana que conheceu o guarda Cláudio. O coração pulsou forte. O dele também.

A família não acreditava no futuro do relacionamento e fazia piadas com o morretense. Mas Égile acredita em Cláudio.

Eu tinha 17 anos, tinha me criado aqui. Ele trabalhava para o governo, então já conhecia o Paraná todo. Meus irmãos não o conheciam e não entendiam porque eu gostava dele, mas eu gostava. Acabei brigando com minha família por ele”, conta ela.

João Perdoncini não gostou muito da decisão. “Meu pai era muito ciumento, tínhamos que ter muito cuidado. Tudo poderia ofender de alguma forma”.

Égile tinha 18 anos e Claúdio, 28, quando se casaram. Passaram a administrar a serraria Rio Kankan Ltda. A extração da madeira ocorria em Roncador, onde também moraram inicialmente. “Tive meus três filhos mais velhos lá: Juarez, Jurandir e Marlene”, diz ela.

Égile lembra da dura rotina do casal, com as noites iluminadas pelo lampião a querosene e a companhia de animais selvagens. “Me lembro que tinha meu filho no colo, escutei um barulho embaixo do assoalho, puxei a madeira com um machado e encontrei um ninho de jararacas. Matei quatro delas”.

Com a expansão dos negócios, o casal voltou a morar em Campo Mourão, A casa onde Égile ainda mora – na avenida José Custódio de Oliveira – era o depósito da carga e o centro de comercialização. Na época, a área era de 16 mil metros quadrados. Atualmente, restou “só” os quatro mil metros quadrados onde Égile mora.

Casal de negócios

Cláudio também aprendeu rápido todos os macetes do negócio. Era comerciante nato. Viajava para vender suas cargas. Ia para São Paulo, Mato Grosso e mais tarde Brasília fazer propaganda do produto. Wagner Canhedo – que chegou a ser dono da Vasp, antiga empresa aérea, foi um dos compradores que não saía de Campo Mourão atrás da madeira extraída pelo casal.

Em 1951, sem avisar Égile, Claúdio se interessou pela política. Foi eleito vereador com 91 votos pelo Partido Repúblicano. Era um vereador interessado pela cidade, mas não comparecia às sessões. Foi cassado por faltas no plenário. O negócio da madeira tomava todo seu tempo e as viagens eram improrrogáveis.

Cláudio estava sempre fora de Campo Mourão, ou em viagem ou em Roncador onde era feito o corte. Égile era base da família e dos negócios. Recebia a madeira, conferia e vendia. Não tinha receio em tratar com os forasteiros que apareciam na cidade em busca da madeira. Guardava em casa mesmo, sacos cheios de dinheiro que recebia das vendas realizadas. Precavida, tinha guardado em casa um revólver calibre 32, que nunca chegou a usar.

“A gente negociava o dinheiro em sacos. Ainda por cima, as notas tinham valor baixo, então chegavam a formar pilhas no escritório”.

Era esperta e ninguém a passava para trás. Em determinada ocasião, compradores de madeira tentaram ludibriar a mulher.

“Me lembro de um cliente que havia carregado três caminhões com madeiras de primeira qualidade. Na hora do pagamento, mentiu dizendo que tinha pego madeira de terceira”.

Atenta e conhecedora do material que vendia, Égile não se intimidou e mandou que a carga fosse descarregada, se o valor certo não fosse pago. O comprador ficou espantado com o conhecimento da mulher e pagou a diferença do valor, sem fazer qualquer contestação.

Mãe e empresária

Na cidade, muitos achavam que Égile era rica e não precisa trabalhar. Mas, a gaúcha era tinha mais fibra do que imaginavam.

Não apenas tocava os negócios, como criava a família quase sozinha. Em Campo Mourão nasceram Márcia, Claudia, Claudete e o temporão Cláudio Junior. Foram sete filhos ao todo.

Criou os filhos na maneira antiga e desde cedo, ensinou o valor do trabalho. Lavava roupas na mão, preparava a comida com as galinhas criadas no terreno e matava porcos, preparando seu próprio presunto e salame.

“Fazia despachos de cargas com eles no colo. Eu era a única mulher na empresa, mas todos sabiam que eu não falava bobagens. Sabia o que tinha e sabia vender. Graças a Deus, nunca me faltaram com respeito”.

E Égile se fazia respeitar. “Na chuva, eu não podia andar de vestidos. Colocava as bombachas e botas que encontrava no armário do Cláudio e todo mundo no pátio arregalava os olhos”.

Motorista “louca”

Égile era multitarefa. Se faltava motorista, ela mesmo assumia o volante do “Feneme- caminhão fabricado na época pela Fábrica Nacional de Motores (FNM), daí o nome – e buscava a carga em Roncador.

Nos finais de semana, gostava de dirigir pela cidade, para espanto das outras mulheres. A bordo de um Ford Fairlane, passeava com os filhos e ia para a missa.

O carro, ano 1959, ainda está na garagem de Dona Égile. “Ainda me sento na área só para olhar para ele. Na época, me chamavam de louca só por dirigir”, lembra.

Além das madeiras que se espalham pela capital federal e emolduram gabinetes de ministérios e da Presidênca da República, boa parte do produto vendido por Égile e Cláudio ainda estão presentes em casas de Campo Mourão.

Literalmente a construção de Campo Mourão, tábua por tábua, passou antes pelas mãos dela. “Eu via os lares sendo feitos com a madeira que eu vendia. Hoje, as casa são todas de alvenaria, mas ainda vejo detalhes daquele tempo”.

“Vila Égile”

Final de tarde de agosto de 2018. O sol se põe atrás de um enorme edifício a alguns metros da casa de Égile. Sentada em sua varanda, ela demonstra paz no espirito ao lembrar de sua trajetória.

Lembra dos bons tempos ao lado de Claúdio. Diz que ele foi excelente pai, apesar de estar grande parte do tempo distante. Mas quando estava em casa, sempre conversava com filhos e filhas. “Para mim era o mais importante. Ele sempre soube agradar meus filhos. Uma mãe que vê suas crianças bem tratadas se engrandece”.

E para Égile, Claúdio – que morreu em novembro de 1989 – era só gratidão. Chegou a colocar o nome da casa onde ela mora com seu nome. Como era grande a área, a placa – ainda no mesmo local, resistindo ao tempo – traz a inscrição “Vila Égile”.

Ela recorda do dia que viu o letreiro pela primeira vez. “Tinha voltado de Roncador dirigindo. Ele sugeriu que eu tomasse banho para descansar que ele iria preparar um chimarrão”.

No pátio, o cansaço pelo trabalho do dia era tanto, que ela nem conseguia levantar a cabeça. As filhas que mostraram o presente. “Não entendi o porque dele fazer aquilo. Ele me abraçou e me disse que era uma forma de agradecer pelo que tinha feito. Pela empresa que ajudei a construir e pela família que criamos juntos”.

Enquanto o sol vai se escondendo, Égile diz que não tem do que reclamar. Sente-se orgulhosa pela família que formou. Os olhos brilham quando fala dos vários netos e bisnetos. Há pouco dias conheceu o novo bisneto:  Augusto Salvadori, nascido no final de de julho, filho do neto Rodrigo Salvadori, atual secretário de Planejamento e Coordenação Geral do Governo do Paraná.

 Fica chateada apenas por não poder mais dedilhar seu piano, que aprendeu a tocar como autodidata. “Os dedos dóem”, fala.

Sente falta do marido e de alguns filhos que se foram. O último, Juarez Silveira Pinto, parceiro de baralho durante as tardes. Diz que agradece pela saúde que tem aos 92 anos, que serão comemorados em outubro. Durante o dia, não consegue ficar parada. Percorre seu imenso quintal para “tirar os matinhos que crescem”. Não gosta de ficar parada.

Às vezes, esconde-se para fumar um dos três ou quatro cigarros que traga diariamente. Não quer problema com uma das filhas que  preocupa-se com sua saúde.

Vã preocupação. Égile, apesar do corpo franzino, representa literalmente a força da mulher. Que ousou, desafiou, fez e venceu. Uma vida mais que bem vivida!

“Sou feliz por tudo que vivi nestes anos todos” segreda ela, enquanto acaricia “Pretinha”, cadelinha que acompanha diariamente por toda a casa. (Colaborou Matheus Bez Batti)

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