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Arte e Cultura

“Chora viola do Campo !”

Orquestra reúne 15 apaixonados por música caipira e mantém viva a tradição do meio rural

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Nas noites de sexta-feira, o som característico de nostalgia invade os corredores da Casa de Cultura em Campo Mourão.

Quem estiver ali e fechar os olhos pode simplesmente fazer uma viagem no tempo e, de repente, se imaginar em meio ao campo, sentado ao lado do fogão de lenha com a chaleira de café ainda fumegando. O fundo musical, com acordes fortes e sem distorções, transpassam a alma.

O som é produzido por 15 homens de várias idades e profissões que dividem em comum o amor pela viola caipira.O instrumento simbolo do meio rural brasileiro, é menor que o violão, tem dez cordas agrupada em pares, começando de baixo para cima. Os dois primeiros pares são afinados em “uníssonos” e os outros em “oitavas”.

Movidos pela paixão, eles se encontram para os ensaios noturnos, dedilhando com dedicação as chorosas violas. Nenhum dos tocadores – com exceção do maestro – é profissional da música, mas a agenda da orquestra está lotada. As apresentações ocorrem em universidades, festas típicas e em almoços de igrejas. O mês de setembro, por exemplo, está “fechado”.

A orquestra tem projetos ambiciosos. Os violeiros criaram o Instituto São José de Viola Caipira. Como entidade, pretendem obter recursos através de leis de incentivo cultural, para desenvolvimento de projetos para divulgação do instrumento e o resgate da chamada música raiz.

Querem ampliar o som da viola por toda cidade. No papel, já está idealizado a disseminação de centros de ensino do instrumento, com aulas para pessoas de todas as idades. Enquanto os centros não se tonam realidade, os ensaios na Casa da Cultura está aberto,. Basta se interessar pelo instrumento e procurar os violeiros durante os ensaios de sexta-feira.

Música caipira e mescla de ritmos na viola

A organização do grupo é coordenada pelo violeiro França Nery. Radialista de profissão, Nery antes de se radicar em Campo Mourão – onde trabalha na rádio Musical FM – morava em Londrina. Trabalhava na rádio Globo local e integrava a Orquestra de Viola Caipira de Londrina.

Com a experiência, foi escolhido como coordenador do grupo mourãoense. O que era um grupo se transformou na orquestra que ensaia continuamente para colocar em prátia os objetivos já definidos.

Nery tem uma história de paixão antiga com a música sertaneja. Natural de Machado, Minas Gerais, cresceu no Paraná ouvindo música caipira, principalmente, a dupla Tonico e Tinoco. Ele não titubeia em escolher seu violeiro predileto: José Fortuna.

Aprendeu a tocar violão há mais de 40 anos e se arriscou no instrumento caipira após um amigo emprestar a viola. “Eu tinha um violão de 12 cordas, ou craviola, como chamam. Meu instrumento quebrou e um amigo emprestou uma viola caipira, me desafiando a aprender”. Não só aprendeu como transformou a viola em seu principal instrumento.

A história de apreço pela música caipira é uma característica comum entre os violeiros da orquestra. Isso inclui  o membro mais novo da orquestra, O agente administrativo Antonio Rodrigues da Cunha Neto tem apenas 21 anos e ao contrário dos demais, não cresceu ao som da viola. Mesmo fã das baladas sertanejas atuais, ele é fã confesso da música caipira de Tião Carreiro e Pardinho.

Para ele, os ensaios da orquestra são um ambiente de aprendizado constante com os violeiros veteranos. “De vez em quando, ainda tiram sarro do meu cabelo, mas o pessoal sabe do amor que tenho pela música caipira” brinca o jovem violeiro.

Pedro Felipe Oliva, também membro da orquestra, ouvir e tocar a viola caipira é como uma viagem no tempo. “Meu pai gostava muito de música sertaneja. A viola é o instrumento do campo, onde cresci e trabalhei. Para mim, ela tem a ver com meu sangue e com minha vida”. Na hora de escolher um nome preferido da música caipira, aponta um nome jovem: Bruna Viola, a mato-grossense que caiu nas graças da dupla Chitãozinho & Xororó e está desbravando seu espaço no universo sertanejo, sempre com a viola a tiracolo.

Moacir Pina França é um o veterano da orquestra. Faz parte do grupo desde a fundação. “Comprei minha viola há uns cinco anos, fazia aulas. Conheci o grupo e, aqui, pude aprender tudo o que sei”.

Para ele, a orquestra é sinônimo de amizade e divertimento. “Sou pedreiro. É uma rotina puxada, quando chego aqui, esqueço de tudo, até do cansaço. É bom demais”, diz o fã de Almir Sater.

O maestro do grupo, Julio Cesar Ribeiro sempre teve a música como ofício. É formado em Cordas e Cantos pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e atua na difusão do instrumento na região, nem que par isso tente atrair a atenção para a vila, com um mescla de ritmos. “Coloco coisas do forró, cateretê, MPB e pop”, diz ele.

O maestro acredita que a inserção de outros estilos musicais ao som da viola também atua como diferencial da orquestra de Campo Mourão em relação à outras existentes no estado. Com conhecimento na cátedra, ele avalia: “Campo Mourão tem bons violeiros!”

História

Nascida supostamente na Europa por volta do ano 1300, a viola é descendente de um instrumento árabe chamado guitarra mourisca. Com a invasão árabe na Península Ibérica por volta do ano 650 toda cultura árabe foi despejada na região que conhecemos hoje como Portugal e Espanha.

Por volta do ano 1000 surge um instrumento chamado de guitarra latina, mais tarde chamada de guitarra renascentista e por volta do ano de 1300 surgem na Espanha dois instrumentos derivados da guitarra renascentista: a guitarra barroca com cinco pares de cordas e a vihuela com seis pares de cordas. Estes dois instrumentos então foram introduzidos em Portugal com o nome de viola (aportuguesamento de vihuela) por volta do ano 1350.

Nos séculos XV e XVI, a viola já era um instrumento largamente difundido em Portugal, sendo considerada como o principal instrumento dos jograis e cantadores trovadores.

Em 1752 foi publicado em Lisboa, um tratado de viola elaborado com visitas ao ensino do estilo rasqueado. O método chamava-se “Dona Policarpa, mestra da Viola”, e se aplicava ao aprendizado da viola portuguesa de cinco cordas duplas.

A viola caipira chegou ao Brasil no período da colonização (por volta de 1550, com dez cordas) trazida pelos jesuítas e colonizadores portugueses. A intenção era utilizá-la na catequização dos índios.

Em contato com outras culturas, principalmente a indígena e africana, o instrumento adquiriu características próprias em cada região.

Por várias regiões do país ela ganhou diferentes formas e nomes. No Nordeste a viola é mais conhecida como viola sertaneja e seu uso mais comum são nos repentes e emboladas (desafios) e sua afinação e formato são bem semelhantes ao do violão. Outra característica dos violeiros típico do nordeste são os duelos de tocadores. Todo bom violeiro se auto afirma o melhor da região. Se outro violeiro o contraria, o duelo está começado.

Na região Centro-Sul do país – principalmente os estados do Mato Grosso, Goiás, Minas, São Paulo e Paraná – a viola é mais conhecida como viola caipira. Suas afinações mais comuns são o Cebolão (em E maior e D maior), Boiadeira e Rio Abaixo.

Nessa região a viola é utilizada nas modas de viola, oriunda das modas portuguesas da segunda metade do século XVIII, e tem como característica principal o canto a duas vozes, tão marcante hoje na música rural brasileira.

Em certas regiões, por tradição, as violas carregam pequenos chocalhos feitos de guizos da cobra cascavel. Segundo a lenda, o adereço tem poder de proteção para a viola e para o violeiro e chega a quebrar as cordas ou até mesmo o instrumento do violeiro adversário.

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