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Na CEF, joias são empenhoradas até para pagamento de agiotas e dívidas de drogas

Avaliador da agência de Campo Mourão já avaliou réplica de um pênis “que tinha até espaço para um motor a pilha”

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Penhorar jóias ou “por no prego”-  expressão originária de Portugal que significa o ato de vender ou deixar em consignação algo pessoal como uma joia de valor – é um hábito antigo. No Brasil, o penhor é um serviço exclusivo da Caixa Econômica Federal desde 1930 e  não exige comprovação de renda.

No entanto, o valor da grama do ouro avaliado pelo serviço da Caixa é de R$ 76 por grama.  Nesta terça-feira (11), o grama do ouro está sendo comercializado a R$ 156 no mercado de metais preciosos. 

Na agência da Caixa em Campo Mourão,  localizada na avenida Capitão Índio Bandeira na esquina com a rua São José,  o departamento de penhor fica no pavimento superior, em uma sala de espera reservada, com divisórias especiais e segurança exclusivo.

O serviço de penhor é um dos menos conhecidos e mais seguros do banco, segundo o gerente da agência, Luiz Antonio Santoni.

As medidas adicionais de privacidade são uma regra da rede bancária porque penhorar ainda gera certa vergonha, explica Santoni. “As pessoas ainda tem receio de trazer uma joia para penhor, elas se sentem desconfortáveis para negociar ao lado de alguém está fazendo um saque no caixa ou abrindo uma conta”.

Segundo ele, há uma carteira fidelizada de clientes mourãoensses que penhoram ou para obter um valor financeiro em espécie ou simplesmente para guardar suas posses na segurança de uma rede bancária. “O valor dos juros passa a ser uma espécie de aluguel de cofre” explica.

O principal do público interessado no penhor são mulheres, acima dos 50 anos e aposentadas. Este perfil  faz com que fluxo de atendimento aumente a partir de setembro, quando começam os pagamentos de 13º salário da Previdência Social, valor usado para pagar os empréstimos concedidos. Em janeiro, o movimento segue alto, dessa vez, composto por interessados em penhorar para pagar impostos.

Em média são realizados 20 atendimentos diários e pelo menos cinco novos contratos  são fechados a cada expediente.  

No balcão

A rotina do avaliador Flávio Henrique Fabris é pesar, analisar e penhorar joias dos mourãoenses. Fabris entrou na Caixa em 2000 como escriturário. Logo após, passou no concurso interno para tornar-se avaliador, estudando composição de ouro, prata, relógios, canetas e lapidação de pedras preciosas.

“Nossa formação como avaliadores inclui cursos, estágio e uma rotina de estudo para que você se mantenha atento. Há um mercado joalheiro muito forte, as peças mudam e você precisa entender essas transformações” explica o avaliador que afirma manter contato constante com outros ourives para ficar atento a fraudes.

O avaliador alerta: “Algo que algumas pessoas não entendem é que o serviço busca somente pesar os materiais preciosos da peça. Não podemos levar em consideração o valor sentimental, o desenho de uma joia ou mesmo ou quanto foi pago na época da compra”.

Fabris comenta que boa parte do trabalho no setor não se restringe a avaliação. “É raro alguém tentar agir de ma fé conosco, mas acontece constantemente de recebermos itens falsos ou com preenchimentos com metal e as pessoas terem pago o valor de uma peça de primeira qualidade”.

Casamentos desfeitos, objetos estranhos e dramas

Segundo o avaliador, alianças são os principais itens penhorados. “Há todo tipo, aliança de gente que ainda está casada e com dificuldade financeira até gente que descasou e quer se livrar do item”. Viúvas penhorando alianças de maridos falecidos também são figuras constantes na sala de espera do penhor.

Fabris recorda casos engraçados que atendeu. “Uma senhora cerrou o puxador de uma gaveta porque jurava que ele era recoberto de ouro. Demorei para conseguir convencê-la que item era de metal e com tinta amarelada.”

Outro foi de um item inusitado para avaliação. “Uma mulher trouxe enrolado em uma manta vários itens de avaliação. Ia desenrolando um por um. O último era um consolo dourado. A réplica de um pênis de uns 10 cm, tinha até espaço para um motor a pilha”. O item não pode ser penhorado. “De fato era coberto de ouro, mas não penhoramos itens banhados.”

Outra aparição inusitada foi de uma réplica de inseto, uma amostra da criatividade de um ourives: uma abelha de ouro. “Um homem a trouxe. Tinha por volta de 5 cm e, de fato, era ouro de boa qualidade. As asas eram feitas com brilhantes lapidados”. Com o contrato de penhor assinado, o avaliador refletiu. “Torci muito para que ele pagasse as parcelas, aquela peça nunca seria vendida em um leilão. Parecia mais uma mosca do que uma abelha.”

Vícios e dívidas 

Outras avaliações tem contornos mais dramáticos. Por exemplo, penhores para pagar dívidas de agiotas. “Geralmente as pessoas pagam 15% de juros para esses agiotas, nós cobramos 2%. Muitas gente recorre a família para pagara a dívida, juntam diversas peças de parentes para conseguir o valor necessário”.

Há outras que são feitas por conta de vícios. O avaliador comenta: “Mais que um olho vivo, precisamos de tato para lidar com esse público. Já atendi muitas senhoras que estavam penhorando joias de família para pagar dívidas de droga de netos”.

Fabris lembra de um caso que o tocou, de uma idosa que estava tentando penhorar um cordão com menos de uma grama, e lamenta não ter firmado um contrato. “Ela me disse que o traficante já tinha jurado seu neto de morte. Infelizmente, o valor de avaliação não chegava a dar uma garantia de R$ 50, nossa taxa mínima. Eu não pude ajudá-la”.

Dramas e tentativas de fraude a parte, Fabris afirma que percebe um apreço pelo trabalho que o setor desenvolve. “A gente consegue ajudar muita gente. Salvar outras de estelionatários. Sinto que eles ficam gratos por isso”.

Se não pagar em 30 dias, vai a leilão

Segundo o gerente Santoni, o serviço é uma  alternativa para quem figura em cadastros de inadimplência, já que para penhorar. Basta ter CPF e RG regulares,  comprovante de residência e o interessado pode sair com dinheiro em espécie após acordo.

Para garantir a segurança da custódia de joias, a direção da agência não pode revelar detalhes sobre o montante guardado em cofre. No entanto, Santoni comenta: “Geralmente, cada contrato inclui um montante razoável de brincos, pulseiras e relógios de ouro ou prata, até pequenas barras de ouro para garantir um bom valor de empréstimo”.

O limite de empréstimo pode chegar a 100% do valor do objeto para quem recebe o salário na Caixa; para os demais, é de 85%. O penhor pode ser renovado inúmeras vezes. Depois de quitado o contrato, o item é devolvido.

Mas atenção: caso o cliente não pague as parcelas nas condições estipuladas em contrato, após 30 dias de atraso, a garantia vai a leilão. Neste caso porém, se o item for vendido por um valor superior ao da dívida, o inadimplente tem direito a receber a diferença.

Além disso, a cotação do ouro no penhor da Caixa é inferior ao valor de mercado, porque embute o risco. O estado da joia também é levado em consideração e o preço é subjetivo, podendo mudar de agência para agência, conforme o avaliador.

O gerente afirma que a taxa de joias que vão para leilão é baixa e que a maioria das pessoas consegue reaver os itens ou se preocupa em renovar o contrato, mas tem outras que simplesmente os entregam em trocado dinheiro e deixam o objeto ir a leilão para pagar a dívida. “Teoricamente, isso é inadimplência, mas na prática a pessoa só queria desfazer-se da joia em troca de algum dinheiro”.

 

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