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Arte e Cultura

Minuano: igual ao vento, eles saíram dos pampas e chegaram ao Paraná

Grupo musical administrado como empresa, em Campo Mourão, mantêm agenda lotada e gera renda para mais de 30 famílias

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O cenário é o interior de uma casa na região do Parque do Lago em Campo Mourão. No ambiente,  o chimarrão pelando na cuia passa de mão em mão acompanhado por um violão afinadíssimo de onde ecoam os inconfundíveis acordes gauchescos.

É assim que a equipe de reportagem do i44 News foi conhecer  a história de quatro décadas do  Minuano. Não o vento cortante que sopra do Rio Grande do Sul até o Paraná, passando por Santa Catarina. Mas sim, o grupo musical que também veio dos pampas até chegar em Campo Mourão.

Quem conta a trajetória são dois gaúchos autênticos e uma descendente dos pampas.  Os músicos José Ramos,  conhecido como Yé,  e Paulo Mignoni, o Paulinho Minuano, e  Miriam Gorete,  relatam como o grupo conhecido nacionalmente pelas composições e interpretações de música gaúcha, tem sua sede em Campo Mourão, no Paraná.

“Uma banda com coração gaúcho, mas criada em Campo Mourão”, diz Yé. Nascido em Carazinho, cidade do Planalto Médio do Rio Grande do Sul,  ele diz que já cantava antes mesmo de começar a falar.

O músico conta que nasceu em uma família composta por  sete irmãos . Cada um deles, tocava um instrumento. A mãe, dedilhava o violão. O paí – um toneiro mecânico – era a platéia. “Nos apelidaram de sapos porque estávamos sempre cantando, tocando, fazendo barulho.”

Yé não se acanha ao contar que aprendeu a tocar nos bordéis. “Eu era menino, tinha 9 anos. Nos escondíamos atrás do palco para não sermos vistos e ouvíamos os músicos tocarem bossa nova, samba e bolero”. Na memória, ele ainda lembra do repertório, composto predominantemente por canções de Lupicínio Rodrigues.

Os Selvagens

Na mesma época, ele e os irmãos Cid, Oscar, Clóvis, Jairo, e Edgar criaram uma banda: “Os Selvagens”. Yé era o baterista “Tocávamos onde quisessem a gente, festas, bailes, até velório a gente encarava. Fazíamos até seis horas de baile. Eu tinha que massagear meus braços com álcool porque eu não aguentava de dor e eu tinha 9 anos”, relembra.

O repertório era popular. Incluía desde o Iê-iê-iê da Jovem Guarda até os sucessos dos Beatles e Golden Boys. “Eu era muito criança, não tive infância. Desde pequeno eu precisei trabalhar como músico profissional” conta Yé.

Após o falecimento do pai, a família que já era sustentada pela música migrou para Joaçaba, no oeste de Santa Catarina. “Minha mãe foi na cabine,. Eu, meus irmãos, a mudança e os cachorros foram na carroceria.”

Em Joaçaba, o grupo mudou de nome, passou a se chamar Irmãos Ramos e se apresentavam em discotecas. Na cidade, conheceu a futura esposa e sócia, Miriam Gorete, quando se apresentava em um festival que Os Selvagens acabaram conquistando o primeiro lugar.

Serenatas

A vinda para Campo Mourão aconteceu no fim dos anos 70, após  convite para que tocassem em um baile no Ginásio Belin Carolo. Na época, as famílias gaúchas que moravam na cidade, planejavam  criar um Centro de Tradições Gaúchas, (CTG). Para isso, promoviam eventos da cultura rio-grandense para angariar fundos.

A “gauchada forte” de Campo Mourão, inspirou a mudança da banda. “Voltamos para Santa Catarina, pegamos nossas coisas e viemos morar nas quitinetes dos motoristas da Expresso Nordeste”.

Yé conta que o CTG índio Bandeira foi construído recursos obtidos com música. “Reuníamos músicos e  íamos nas casas dos empresários para acordá-los com serenatas. O pessoal até se assustava mas sempre assinavam um cheque pra gente, outros davam boi ou ovelha para churrascos”.

“Minuano”

O início oficial do Minuano foi em 1978. “Nelson Ned veio tocar conosco e nos falou sobre um concurso que a Record iria promover”, lembra Yê.  Era o Festival Nacional da Música Sertaneja. Miriam foi quem fez a inscrição.

“Me lembro que precisava datilografar as canções em oito vias”, diz ela.  A banda concorreu com músicos de 16 estados. Representavam  o Paraná, e ficaram com o primeiro lugar com a música “Gaitinha de 8 baixos”.

A apresentação foi em São Paulo no ginásio do Ibirapuera para uma plateia de 12 mil pessoas. “Me lembro que no nosso camarim estavam  Chitãozinho & Xororó, Milionário e José Rico e Trio Parada Dura. Na época, eles nos seguiam para comprar nossas músicas. Todos apresentavam aquelas modas chorosas. Nossa música tinha um embalo de vaneira. Quando tocamos, a plateia foi abaixo”, fala Yê.

A premiação incluía uma gravação de disco e uma caminhonete. modelo Veraneio. “Cobrimos Campo Mourão de foguetes por conta da vitória” brinca Yé.

No estúdio da gravadora Seta, em São Paulo, o nome “Irmãos Ramos”, foi rejeitado. “Diziam que não pegava bem. Até sugerimos ‘Os Mosqueteiros’, mas aconselharam o nome ‘Minuano’. Era algo que lembrava o Sul”, fala Yê.

Quem apadrinhou o novo nome foi Paulo Machado de Carvalho. Na época, o produtor de rádio era sócio de Silvio Santos. Atualmente, empresta seu nome para o nome oficial do estádio Pacaembu, na capital paulista.

Yé diz que  a gravação do primeiro disco não foi fácil. O grupo ganhou um concurso de música sertaneja, mas não queria gravar um álbum do gênero. “Gauchada teimosa, bairrista. Preocupados com o que  poderiam pensar da gente lá na vila, em Carazinho.”

O acordo final da gravação era que o vinil sairia com o lado A de músicas gauchescas e o lado B com músicas gauchescas. O resultado não agradou o público. “As vendas foram péssimas. Para os sertanejos nós éramos gaúchos, para os gaúchos nós éramos sertanejos. Ninguém ia comprar um álbum em cima do muro”.

A vendagem frustrada não atrapalhou o convite da alta cúpula da Record, que havia criado um programa de rádio para o Grupo Minuano. O convite, no entanto,  foi recusado. “Não tínhamos nenhum conhecimento de mundo. Era nossa primeira vez em São Paulo. Nos assustávamos com aquele mundaréu de prédios e ainda achávamos que o metrô podia pegar fogo. Não tinha como apresentar um programa de rádio nacional”, diverte-se com a lembrança Yê.

O casamento se foi, a sócia continuou

De volta a Campo Mourão, o grupo se tornou uma empresa administrada por Miriam. Além de mulher de Yé, era também era sócia do grupo. Após 35 anos, o casamento foi desfeito, mas a sociedade continua.

Miriam sempre cuidou da da parte de comercial do grupo. Vendeu shows por telefone, por rádio amador, e agora pelas redes sociais. “Hoje, somos uma empresa e geramos renda para mais de 30 famílias, entre músicos, produtores e equipe técnica”, diz ela.

O grupo passou por períodos de fartura, segundo Miriam. “No fim dos anos 90, negociávamos o show em dólar, porque os shows eram marcados com meses de antecedência. A economia mudava tão rápido que não saberíamos o valor que a moeda teria até o dia da apresentação.”

Na opinião de Yê e Miriam, a  fórmula para se manterem tanto tempo na estrada é o profissionalismo da banda, rigor na administração, direção artística e, claro, talento.

Para Yé, uma prova do investimento na produção musical foi um elogio da banda Roupa Nova pela regravação de “Yolanda”, canção composta por Chico Buarque.  “Eles disseram que nunca tinham visto uma regravação com uma qualidade tão boa quanto a que fizemos. Isso me deixa muito feliz”.

De fã a membro da banda

Paulinho Minuano é prova do reconhecimento do Grupo Minuano no Rio Grande do Sul. Nascido em Passo Fundo, ele  ocupa o posto de contrabaixista, vocalista e produtor musical do grupo.

O músico lembra a admiração que tinha pela banda desde a adolescência. “Eu assistia as apresentações do Minuano e achava aquilo incrível. Os vocais e a qualidade dos músicos. Ganhei uma chance quando um dos músicos saiu”.

Há quase 20 anos no Minuano, Paulinho participou das turnês internacionais do grupo. A primeira delas para os EUA. “Nos apresentamos em um CTG em Boston. Ficamos 40 dias rodando pela América, nos apresentando para gaúchos que viviam lá”.

Com o tempo, viu o processo de renovação da banda que não tira do repertório o balanço dos fandangos e vaneiras dos pampas, mas abre espaço para uma nova geração de músicos. “Eu sempre falo isso para os músicos. Nós não nos apresentamos mais para os gaúchos que vieram do Rio Grande do Sul. Somos ouvidos por gente que cresceu com a música gauchesca, vendo o amor que pais e avós tinham por essas canções”.

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