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Comportamento

Católica, ela sofre preconceito por vender produtos ligados a crenças africanas

“Eu não sabia…meu marido falou que ia comprar uma loja de jornal e revista” diz dona de uma loja especializada em artigos religiosos

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O cenário do diálogo é o interior de uma pequena loja especializada em artigos religiosos localizada na área central de Campo Mourão.


—  A senhora tem ai os produtos para o “enterro de São Lázaro”?

— Ah…eu tenho uns negócios…você procure!

A conversa, que a primeira vista poderia ser interpretada como rispidez da comerciante, é na verdade o jeito sincero de Videte Sonsin, 75 anos – dona da loja – deixar o cliente a vontade para encontrar o que deseja.

Afinal, na loja dela os clientes – na maior parte das vezes – sabem mais sobre os produtos comercializados do que ela mesmo. E isto não é de hoje. Ocorre há décadas.

Videte, entrou para o setor de venda de artigos religiosos quase sem querer. “Eu não sabia…meu marido falou que ia comprar uma loja de jornal e revista”, lembra Videte.

As imagens e velas que estavam na loja, que na época funcionava na antiga rodoviária da cidade, foram interpretadas por ela como peças de decoração e assim oferecidas.

No entanto, com a chegada dos clientes é que ela foi descobrir no que “estava metida”. Videte havia se tornada proprietária de um comércio especializado na venda de produtos religiosos.

Entre eles, incensos com nomes estranhos – “chama dólar”, “pega homem”, “corre atrás de mim” – e muitas imagens de pretos velhos, índios nos mais variados formatos, orixás de todos os tipos, santos para todos os milagres e muitas imagens de Nossa Senhora Aparecida.

Ao saber sobre seu novo ramo, Videte teve medo de entrar no seu próprio estabelecimento comercial. Contratou três “guarda-costas” para acompanhá-la e não ficar sozinha no local.

Aos poucos, foi tomando coragem e dispensou os homens. Conversando com os clientes, aprendeu a fazer o pedido certo aos fornecedores. Ampliou o catálogo de produtos e mudou para uma loja maior na rua Santa Catarina.

No local se acha quase tudo que necessário para os chamados “trabalhos espirituais”. Tem ainda incensos indianos, velas de todas as cores e, por via das dúvidas, mantém sem grande quantidade imagens de santos católicos e da Santa.

Mesmo com a passagem de tanto tempo, Videte ainda tem certo receio de entrar na loja durante a noite. “Mas nunca me aconteceu nada, não vi nada. Não vai ser agora que eu vou ver”, diverte-se ela.

Clientes discretos

A comerciante ainda não sabe explicar bem para que serve os produtos que vende. Mas os clientes, sempre discretos, sabem o que querem e agradecem por encontrar.

” A maioria das pessoas pessoas que vem aqui nao querem que saibam que estiveram na loja”, conta ela. Alguns chegam a dizer que foram a loja para comprar o produto para outra pessoa.

Há pessoas porém, que evitam até mesmo passar na calçada em frente da loja. “Tem gente que não passa aqui. Ou, senão, quando passam se benze”, diz a comerciante, fazendo ela mesma o sinal da cruz.

Simpatia

Se ainda não conseguiu identificar a utilidade para cada produto que vende na loja especializada, Videte se tornou “especialista”  e uma coisa: na simpatia. Não, no sentido de um ritual ou superstição, mas sim, no contexto definido pelo dicionário como “sentimento de afinidade que atrai e identifica as pessoas.

“Eu mexo com o povo. Com o povão. É o que eu gosto”, diz ela.

E é para esses clientes, que a comerciante faz o papel de conselheira muitas vezes. “Aqui vem gente com vários problemas. Desabafam, pedem orientação. Então eu tenho uma oportunidade ajudar essas pessoas”, explica Videte.

A ajuda maior é ouvir as pessoas e vez ou outra fazer uma oração.

“Eles pensam que eu sei fazer, que tenho poder. Não, eu dou oração, mando rezar…pedir para Deus…pedir para Nossa Senhora…pedir para os anjos. Acender vela branca para se proteger”, relata.

Preconceito religioso

Mesmo a frente do comércio de produtos, muitas vezes identificados com crenças africanas, Videte sempre foi católica fervorosa. Daquelas que frequentam e participam dos trabalhos sociais da igreja.

Mesmo assim, sofre preconceito devido a sua atividade. Segundo ela, beatas a evitam na igreja.

“Não podemos ter amizade, por causa daquele casa, daquela loja”, cochicham as mulheres, teoricamente religiosas, conforme o relato de Videte.

A comerciante não se preocupa. “Nunca entraram, não conhecem e julgam, né! Mas, eu deixo assim…cada qual responde por si”.

“Enterro de São Lázaro”

O termo “enterro de São Lazáro”, utilizado no hipotético diálogo registrado na abertura desta matéria, é um “trabalho” espiritual – segundo a crença de quem o pratica – realizado com uma vela de sete cores, uma vela de São Lázaro, um sabonete preto, um litro de água do mar, dois lençóis brancos, 500g de pipoca estourada sem sal, seis galhos de alecrim, duas espadas-de-São-Jorge e um saco de lixo preto.

O “trabalho” é realizado para afastar os “espíritos obsessores”.

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