Fale Conosco

Comportamento

A gentileza da “moça do guarda-chuva vermelho” e a gratidão de uma mãe

A história real de um pequeno gesto de gentileza com poder de transformar a sociedade

Publicado

em

“Moça do guarda-chuva vermelho” – o título da mensagem inserida em uma página de uma rede social era quase enigmático e chamava a atenção de quem o lesse. No texto, a autora lançava um apelo carinhoso: “Moça, dona desse guarda-chuva, por favor apareça ♥”.

A postagem era um oásis em meio ao discurso agressivo que permeia cada bit (menor unidade de medida de transmissão de dados usada na computação) na internet, provocando o distanciamento e a robotização de pessoas.

Mensagem postada por Nayara nos grupos públicos de redes sociais

A história real por trás da mensagem era melhor ainda e mostrava o impacto social de um gesto de carinho, atuando como fator multiplicador de bem-estar na sociedade. Ou, melhor resumindo: nem tudo está perdido e esse mundo ainda tem jeito.

O i44 News foi conhecer as personagens ocultas atrás da mensagem – espalhada em vários grupos públicos nas redes sociais. Após localizá-las, o portal de notícias as reuniu para que, juntas, contassem a razão da busca incessante pela “moça do guarda-chuva vermelho”, que na verdade, era uma sombrinha.

O encontro ocorreu um dia após a publicação da postagem, em uma doceria. O caso registra a gratidão em retribuição a uma gentileza. O que poderia ser comum está se tornando cada vez mais raro na sociedade atual. Por isso, merece ocupar espaço espaço no noticiário, ocupado em grande parte por acontecimentos negativos.

Gentileza e Gratidão

A dona de casa Nayara Caroline, 26 anos, deixou sua casa no bairro Diamante Azul em Campo Mourão, no início da tarde de quarta-feira (31), levando junto seu filho, o pequeno Elyab, de um ano e quatro meses de idade. Seu compromisso era realizar um saque em uma agência bancária na área central da cidade.

Com a temperatura alta – os termômetros chegaram a marcar 30 graus naquele dia -, Nayara vestiu o menino com roupas leves. Após passar no banco, por voltas das 14h, mãe e filho foram surpreendidos por uma chuva torrencial, no momento em que se dirigiam ao terminal de ônibus.

Nayara tentava proteger Elyab da chuva. Foi quando cruzaram com a auxiliar administrativa Geovana Rodrigues, 21 anos, nas esquinas da rua Araruna e a avenida Capitão Índio Bandeira.

Prevenida, Geovana estava protegida com uma sombrinha vermelha. Havia deixado a imobiliária, onde trabalha, para realizar tarefas rotineiras do escritório.

Ao ver a cena, Geovana não titubeou. Se aproximou de Nayara e lhe estendeu a sombrinha para proteger Elyab. A mãe do menino inicialmente recusou o objeto, afirmando que não lhe pertencia. Chegou a pensar que a peça havia caído na rua e era de outra pessoa.

Mesmo assim, Geovana insistiu para que a sombrinha fosse utilizada para proteger Elyab da chuva. Confusa, Nayara aceitou o objeto. No meio da rua, as duas apenas trocaram olhares e seguiram seus destinos.

A cena trouxe inquietação a Nayara. Momentos depois, ela deu conta que a sombrinha pertencia a “moça” que gentilmente se preocupou com o bem-estar de seu filho, sem qualquer pergunta. Ficou comovida.

Ao chegar em casa, a mãe de Elyab decidiu escrever o texto para localizar a “moça do guarda-chuva vermelho”. Postou a mensagem em vários grupos das redes sociais.

A postagem teve ampla repercussão. Muitos elogiaram a atitude da “moça”. Quase no final da tarde, às 17h01, chega uma mensagem para Nayara.

Olá, estou interessada em comprar o guarda-chuva vermelho. Nunca pensei que esse guarda-chuva velhinho te ajudaria tanto. Que bom. Que Deus te abençoe sempre. Você e o bebê lindo”.

Era Geovana. As duas trocaram números dos telefones.

O Encontro

No dia seguinte, Nayara e Geovana foram convidadas para um encontro pelo i44 News. Nayara chegou ao local com Elyab no colo e sombrinha vermelha. Logo depois, Geovana apareceu tímida. Ao avistar mãe e fiho no local, sorriu.

As duas se abraçaram e Nayara agradeceu o gesto afetuoso da auxiliar administrativa. Geovana contou que no momento em que encontrou mãe e filho na chuva, imaginou que seria mais fácil para ela – uma adulta – se curar, se por acaso, ficasse gripada. Por isso, entregou a sombrinha para Nayara e seguiu sob a chuva seu caminho.

Durante um bate-papo, Nayara contou que Elyab ganhará um irmãozinho ou irmãzinha em breve. Ainda não sabe o sexo do bebê, mas prometeu que Geovana será uma das primeiras a ser informadas.

As duas se despediram com um abraço apertado e entre sorrisos prometeram se encontrar novamente. Agora como amigas, que a gentileza uniu.

Calor da bondade

Os gesto de gentileza, de Geovana, e de gratidão, de Nayara, trazem benefícios ao cérebro. Psicólogos da Universidade de Sussex (Reino Unido) afirmam ter confirmado que o “calor da bondade” – algo que pode ser sentido mesmo quando você não está diretamente envolvido e não tem nada a ganhar com o ato bondoso – tem reflexos diretos na oxigenação do cérebro.

O estudo “Uma meta-análise comparativa fMRI de decisões altruístas e estratégicas para doações” foi publicado na revista NeuroImage no mês passado.

Jo Cutler e Daniel Meiklejohn chegaram a essa conclusão depois de analisar pesquisas científicas envolvendo os mapeamentos cerebrais de mais de mil pessoas, enquanto elas tomavam decisões envolvendo gentileza e amabilidade.


Atos de bondade genuína aparecem de forma distinta no cérebro – os cientistas chamam esses sinais de “o calor da bondade”.

Como vários experimentos individuais sugeriam que a generosidade ativa a rede de recompensas do cérebro, os dois pesquisadores dividiram a análise entre o que acontece no cérebro quando as pessoas agiam com altruísmo genuíno – quando elas não têm um benefício pessoal – e quando elas agiam com “gentileza estratégica” – quando podiam ganhar algo como consequência de sua decisão.

Memória e Aprendizagem

Os resultados mostraram que as áreas de recompensa do cérebro são mais ativas , quando as pessoas agem com gentileza estratégica, quando há uma oportunidade para os outros retribuírem o favor.

O estudo revelou, no entanto, que atos de altruísmo verdadeiros, sem expectativa de benefício pessoal, também ativam as áreas de recompensa do cérebro e, mais do que isso, que algumas regiões cerebrais (o córtex cingulado anterior subgenual) são mais ativas e proporcionam maior oxigenação durante a generosidade altruísta, indicando que há algo único em ser altruísta sem esperança de ganhar algo em troca.

A correta oxigenação aumenta a capacidade do cérebro de se adaptar e criar novas conexões, a chamada neuroplasticidade. Nos estudos realizado com ressonância magnética foi possível observar intensa atividade no hipocampo.

Essa região cerebral está relacionada à à memória e à aprendizagem. No local, estão armazenadas as células-tronco que darão origem aos novos neurônios.

Comente

Comentários

Copyright®i44 News. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do i44 News (redacao@i44.com.br).