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Arte e Cultura

Ao trocar “catete” para “cacete”, Dedé Santana teve que se explicar em Brasília

Eterno integrante de “Os Trapalhões” fala sobre temas polêmicos em entrevista exclusiva ao i44 News

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Dedé Santana concedeu entrevista exclusiva ao i44 News

Ele nasceu sob as lonas do circo. Estreou aos três meses de idade, fez fama na televisão e pensa em encerrar sua carreira no mesmo local onde tudo começou: no centro do picadeiro.

Pelo nome de batismo, Manfried Sant’anna, quase ninguém o conhece. Mas, o personagem que interpretou durante mais de seis décadas, reside na memória de várias gerações de brasileiros: Dedé Santana, integrante do eterno quarteto humorístico “Os Trapalhões”, ao lado de Didi, Mussum e Zacarias.

No final de outubro, Dedé fez uma rápida passagem por Campo Mourão para se apresentar em um circo. Fez a viagem para atender o pedido de amigos, proprietários do circo, e porque se sente em casa sob as lonas, paixão de sua vida.

Não é a toa que ele carrega uma representação importante para cultura brasileira. Desde 2015, proprietários de todos os circos que atuam no País escolheram Dedé como “Embaixador do Circo” no Brasil.

Foi neste ambiente que a repórter Ana Claudia Dutra e o cinegrafista Luiz Carlos Oliveira, do i44 News,  o encontraram no final da manhã de quarta-feira (31).

Conhecido por ser avesso a entrevistas, Dedé surpreendeu os repórteres.
Topou falar sobre qualquer tema, em uma longa entrevista, sentado em frente ao picadeiro do Circus Ferrari, que estava de passagem pela cidade.

Lembrou o início no circo, a carreira na televisão, as supostas divergências com Renato Aragão – o Didi -, o patrulhamento do humor, a escolha de Bolsonaro como presidente e revelou ter sido levado a Brasília – na época do governo de Juscelino Kubstichek – para explicar a troca das palavras “catete” por “cacete”.

Em quase uma hora de conversa, demonstrou uma vitalidade física e mental invejável para um homem de 82 anos.

Veja os principais trechos da entrevista exclusiva de Dedé ao i44 News:

DNA Circense

Oitava geração de uma família de artistas circenses, Dedé é filho do palhaço Picolino e da contorcionista Ondina. Sua primeira aparição no palco foi aos três meses, durante uma peça, no colo da mãe.

O berço com a criança estava um nível abaixo do picadeiro, quando Dedé começou a chorar. A mãe, interrompeu o espetáculo para pegá-lo e o trouxe ao palco no colo.

Na época, o circo apresentava pequenas esquetes teatrais. Naquela noite, estava sendo interpretada uma cena da “Cabana do Pai Tomás”. No meio da peça, por coincidência, um choro de criança que era reproduzido por uma gravação em um disco de vinil.

O choro de Dedé foi bem na hora.

“Todo mundo riu em cena, e meu pai foi obrigado a interromper o espetáculo para explicar que eu era filho dele. Foi meu primeiro aplauso. Foram as primeiras palmas dirigidas ao futuro artista”,

Mais tarde, Dedé participaria das apresentações no circo do pai. Foi trapezista, palhaço e até arriscou pilotar no “Globo da Morte”.

Fora do circo foi engraxate, ajudante de mecânico e verdureiro. Já adulto, foi dublador, diretor, roteirista e atuou em mais de quarenta filmes durante a carreira. Mas sempre voltou para seu ambiente seguro: o picadeiro.

Circo, teatro, cinema ou televisão?

Sem pestanejar, Dedé diz o circo é o local se sente mais à vontade, podendo brincar com o público e improvisar com um “humor família”.

“Vem o avô, a avó, o pai, a mãe e os filhos. Olha que coisa bonita. Eu fico muito feliz de ver esse tipo de publico querendo me abraçar e falar comigo”.

“Os Trapalhões”

O retumbante sucesso de “Os Trapalhões” – formado ao lado de Didi, Mussum e Zacarias – não passava pela mente de Dedé. Ele conta que a ideia inicial era alegrar desde a criança ao adulto, apresentando um humor ingênuo. “Não havia um direcionamento”.

Didi e Dedé foram os primeiros a se conhecer. Dedé trouxe Mussum e Didi incorporou Zacarias ao grupo.Nenhum deles imaginava que o programa ficaria tanto tempo no ar.

Exibido aos domingos, o programa apresentava uma sucessão de esquetes sem aparente conexão, exceto a presença dos próprios. O programa foi inserido no Livro dos Recordes, o “Guiness Book”, como o humorístico de maior duração da televisão, com trinta anos de exibição.

“Separação de Didi”

Dedé diz que ele e Renato Aragão, o Didi, preservam uma amizade de mais de 50 anos, entre trabalhos na televisão e no teatro. Sem contrato em papel, Dede conta que os dois prometeram no fio do bigode “ficar juntos até morrer”.

Segundo ele, entre os anos de 1995 e 1998, a suposta separação da dupla era um dos assuntos mais comentados no Brasil. Mussum e Zacarias haviam morrido, e os dois amigos não eram mais vistos. Começou a especulação.

Neste mesmo tempo, Didi e Dedé foram convidados pela SIC – televisão portuguesa – para receber uma premiação em Portugal.

Os dois amigos fizeram tanta palhaçada no vídeo, que o canal os contratou para uma curta temporada, que acabou se estendendo por três anos em terras lusitanas. Os atores que atuavam junto a Didi e Dedé nesse projeto eram portugueses.

“A turma falando que a gente estava brigando e nós estávamos bem ‘bão’ lá em Portugal”, brinca o humorista.

O “cacete” e Bolsonaro

Dedé e o Paulo Cintura visitaram Bolsonaro em 3 de outubro

Ele não sabe exatamente o ano, mas lembra que durante o período da ditadura – iniciada a partir de 1964 – era comum “cortes” de censores nos textos que seriam apresentados ao público.

Além disso, agentes se infiltravam nas platéia para acompanhar as apresentações. Foi um destes infiltrados que o denunciou durante uma noite em que um texto abordava Juscelino Kubitschek, que presidiu o País entre 1956 a 1961.

No roteiro, havia uma fala. Dedé deveria dizer do “Palácio Alvorada para o Palácio do Catete”. Acabou saindo “do Palácio Alvorada para o Palácio do cacete”.

Foi o suficiente. Dedé teve que ir à Brasília e se sujeitar a uma reprimenda pelo equívoco.

“Foi um erro….eu tinha que falar Catete …acabou saindo cacete”.

O humorista porém, não ficou com traumas de militares. Tanto é, que em Campo Mourão, estava feliz com a vitória de seu candidato nas eleições presidenciais deste ano: o capitão reformado Jair Bolsonaro.

Dois dias antes da votação do primeiro turno, Dedé chegou a visitar Bolsonaro e afirmou que o político seria “a salvação para os seus netos” em um vídeo publicado nas redes sociais.

Briga com Chico Anysio

Entre idas e vindas na Globo, Dedé lembra uma briga com quem considera o grande gênio do humor: Chico Anysio.

Na ‘Escolinha do Professor Raimundo’, Dedé interpretava um caipira e foi substituído por Pedro Bismarck, interprete de “Nerso da Capitinga”, um dos personagens mais famosos do programa.

Chico Anysio ofereceu um novo personagem e o papel “bobalhão” não agradou. “Eu falei: Chico, eu não vou conseguir fazer”.

A negativa não foi aceita por Chico e Dedé deixou o humorístico da Globo após o desentendimento.

Com Beto Carrero

O humorístico “Dedé e o Comando Maluco” foi um dos grandes sucessos da carreira de Dedé Santana em parceria com o amigo Beto Carrero e o SBT no ano de 2005.

No programa, General Dedé e os recrutas – palhaços de circos escolhidos para o elenco – eram seguranças de Beto Carrero e se envolviam em várias aventuras dentro do parte Beto Carrero Word. “Acabamos várias vezes em primeiro lugar de audiência. Chegamos a bater a Globo”, diz.

O programa foi extinto da televisão após a morte de Beto Carrero em 2008. No mesmo ano, Dedé retornou para a Globo para trabalhar com Didi.

Politicamente correto

O comediante critica o “politicamente correto” no humor atual. Diz que os comediantes estão amordaçados.

“Nunca chamei o Mussum de afrodescendente. Ele mesmo pedia para ser chamado de negão”.

Ele acredita que as piadas que contava com Renato Aragão, Mussum e Zacarias dos anos 70 ao início dos 90 não seriam aceitas atualmente.

“Ia dar problema. Nossa piadas eram sem maldade. Hoje seria impossível. Uma coisa chata”.

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