Fale com o i44 News

Educação

Aluna exige “retratação” de professor que abordou saída de médicos de Cuba em aula de Química no Rondon

Professor se sentiu “ameaçado”, aluna se diz “constrangida” e diretora negou caso e voltou atrás após evidências

Publicado

em

A decisão do governo de Cuba de retirar profissionais daquele país do programa social “Mais Médicos”, alegando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, provocou desentendimento em uma sala de aula do Colégio Estadual Marechal Rondon – localizado na área central de Campo Mourão – na quarta-feira (14).

A discussão entre um professor a uma aluna repercutiu em grupos públicos formados em aplicativos de mensagens, após divulgação de áudios gravados pela estudante relatando a ocorrência, chegou ao conhecimento do Núcleo Regional de Educação e pode acabar nas barras dos tribunais, se não houver “retratação”, como exige a aluna.

Insatisfeita com a a abordagem do tema no horário de aula, Nicole Siqueira, 18 anos – que cursa o 2º ano do Ensino Médio – diz ter sido “constrangida” por ter perfil “de Direita” e alega que chegou a apresentar sintomas de uma crise epilética, após discutir com o professor, tendo que abandonar o local de estudo sob “zoação” (brincadeiras sarcásticas) dos demais estudantes.

Denny César Faria, 42 anos, professor envolvido na confusão, admitiu ter se exaltado, elevando o tom de voz, após ter se sentido “ameaçado” pela estudante que teria lhe dito para “tomar cuidado”. No entanto, ele nega qualquer constrangimento contra a moça e diz que os demais alunos testemunharam o caso e podem comprovar sua versão.

O caso foi registrado em ata pelo setor de orientação educacional do colégio. Rita de Cássia Cartelli de Oliveira, diretora da unidade de ensino, procurada por telefone pelo i44 News na manhã de sexta-feira (16) para comentar a situação, negou inicialmente a ocorrência da discussão na escola. “Não é do colégio Marechal Rondon, eu acredito”, disse ela ao ser informada sobre o motivo da reportagem.

Diante de evidências apresentadas e a citação da existência de uma ata, a diretora voltou atrás na tese do desconhecimento. “Tem [registro da ata], já foi verificado em relação a pessoa. Já tem todo o conteúdo que estava trabalhando.Tem tudo”, disse ela, acrescentando : “a escola tomou as providências e está tudo registrado”.

Rita de Cássia porém, disse que estava em recesso e que se encontrava em um local onde não poderia falar sobre o assunto e que só se manifestará sobre a situação na segunda-feira (19).

A chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Campo Mourão, Juliana Sena, que ouviu o áudio gravada por Nicole denunciando o suposto constrangimento, disse que o órgão vai se informar sobre o caso na segunda-feira e que encaminhará a situação para análise da Ouvidoria da secretaria estadual de Educação.

Versão da aluna

O entrevero entre aluna e professor ocorreu durante o horário reservado para o ensino da disciplina de Química, na quarta-feira (14).

Dizendo ter perfil de Direita e ser eleitora de Jair Bolsonaro, Nicole afirma que o professor iniciou a discussão sobre a decisão de Cuba no meio da aula. Ela disse que se sentiu desconfortável com o assunto e passou a manifestar descontentamento com expressões faciais.

De acordo com a versão dela, o professor passou a apresentar sua opinião sobre o tema, culpando indiretamente Bolsonaro pela decisão adotada por Cuba.

“Ele viu a expressão negativa no meu rosto, foi a hora que ele parou tudo e começou a falar algumas coisas para mim. Eu achei ofensivo ele falar que eu era muito bem vestida. Como se eu não tivesse o direito de ser contra aquilo. Querendo dizer que eu era mimada”, falou a estudante.

Nicole disse que sua reação fez com que os demais alunos “instigassem” o professor a continuar o assunto, ao mesmo tempo que faziam “zoação”.

Incomodada e afirmando ter sentido sintomas de uma crise de eplepsia – detectada, de acordo com ela, no ano passado – Nicole afirma ter proferido a frase “cuidado com o que você fala”. O professor então, na versão da estudante, teria indagado se ela iria agredi-lo e dito que “ainda não era 2019” para que a aluna pudesse gravá-lo em sala de aula para usar em uma denúncia.

Recentemente, em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, Bolsonaro defendeu a ideia de filmar professores que façam suposta “doutrinação” política em sala de aula. “Não tem problema nenhum, pode filmar”, disse ele.

Nicole conta que começou a sentir sinais de taquicardia e sudorese nas mãos, como ocorre durante o ataque epilético e teria deixado a sala de aula ” para não passar vexame” em frente aos outros alunos.

O professor ainda – conforme a estudante – teria lhe dito “vai com Deus”. Fora da classe, Nicole procurou a sala da direção, mas como a diretora estava ausente naquele momento, decidiu registrar uma ata junto à àrea de orientação educacional.

A estudante diz ter sido orientada por advogados a registrar boletim de ocorrência na delegacia. Ela analisa ainda a possibilidade de processar o professor por constrangimento moral. No entanto, fala que pode encerrar o caso se Faria se dispuser a fazer “uma retratação” em frente aos demais alunos.

O que diz o professor

O professor Denny César Faria ficou surpreso com a repercussão do caso. Ele admite ter abordado o assunto na sala de aula e diz que fez o mesmo com as demais turmas da escola.

Para ele, a discussão sobre a saída dos médicos cubanos do programa federal “Mais Médicos” é um assunto como outros, que ao ser levantado em sala de aula, leva os alunos a uma reflexão sobre o País.

Indagado se a aula de Química – disciplina que leciona – seria o ambiente correto para falar sobre o tema, Faria disse que a discussão faz parte da autonomia didática do professor, que tem direito a crítica, mas sem qualquer imposição.”Não é um caso de doutrinação”, falou ele.

Faria conta que ao levar o assunto para sala de aula, a ideia era discutir o tema, sem qualquer posicionamento político ou ideológico. “Queria levar a reflexão sobre a situação das pessoas no semi-árido e em outras regiões onde não há médicos”, disse ele.

O professor disse que enquanto falava sobre o assunto, Nicole fazia “micagens” (gestos ridículos, caretas) com o rosto. Ao repreender a atitude, a aluna teria o confrontado com a frase “toma cuidado”.

Foi a partir deste momento, segundo ele, que decidiu elevar o tom de voz. ” Não a ofendi em nenhum momento, mas não posso deixar um aluno partir para uma ameaça contra um professor. Se em 2019, houver uma Lei da Mordaça, será uma outra coisa. Mas, no momento ainda não é esta situação”.

O professor diz que a atitude da aluna é “imatura” ao levar a situação para discussão pública. Na visão dele, o assunto deveria ser discutido na própria escola. Ele diz que pode adotar providências legais se houver prejuízo a sua imagem como profissional e fala que leciona há 16 anos, sem qualquer problema funcional.

Faria acredita que estava sendo “gravado” por Nicole. A estudante nega e alega que o celular estava sobre sua carteira, mas “não estava filmando”.

O professor acredita que a saída dos médicos cubanos do programa social do governo federal trará prejuízos a população desassistida na área de saúde. Para ele, “os filhos da elite branca” formados em Medicina não vão substituir os cubanos nos locais longínquos do País.  

Comente

Comentários

Copyright i44 News. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do i44 News (redacao@i44.com.br).