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Saúde

Ele auxilia os pacientes a enfrentar a morte com qualidade de vida

A especialidade de Cuidados Paliativos ainda é confundida com a eutanásia e gera preconceito

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Ele atua em uma área ainda considerada tabu e desperta preconceito até mesmo de outros médicos. Sua especialidade é acompanhar os últimos momentos de pacientes diagnosticados com doenças terminais e fazer que eles e seus familiares consigam ter qualidade de vida em um momento tão difícil para todos.

Único profissional da especialidade em Campo Mourão, com formação na Universidade de Southhampton, na Inglaterra, o médico Carlos Augusto Albach, integra uma equipe de cuidados paliativos de um plano de saúde em Campo Mourão.

O médico avalia que a maior oferta do serviço no País depende de políticas públicas e gestão mais eficiente do SUS. “A normativa no papel é uma história. A prática é um caminho bem distante. Mas a vejo com ponto de partida”, disse.

Os cuidados paliativos têm reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1990, mas a evolução do conceito caminha vagarosamente no Brasil, com entraves no sistema público de saúde e formação acadêmica.

Um estudo feito pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (APCP) mostra que existem 177 serviços desta natureza registrados nos 2.500 hospitais brasileiros com mais de 50 leitos. No Paraná são oito distribuídos por Curitiba, Maringá, Londrina e Foz do Iguaçu. A maioria, um total de 177, está presente na região Sudeste.

De acordo com a APCP, na América Latina, o Brasil está muito atrás de países como o Uruguai, Argentina e Chile na oferta de cuidados paliativos e só está à frente da Republica Dominicana e Venezuela. “Outro entrave, por se tratar de uma atividade relativamente nova, é a falta de interesse de médicos e outros profissionais da área da saúde”, comentou Albach.

O tabu maior, os especialistas acreditam, talvez venha justamente da intimidade que a área tem com a morte, algo que a medicina luta o tempo todo para vencer ou adiar. Ou ainda da confusão que existe aqui e acolá de medicina paliativa com eutanásia – prática definida por antecipar a morte natural do paciente para findar o sofrimento e que é crime no Brasil.

Para a medicina paliativa, a dignidade humana se preserva na linha do meio: nem antecipar e nem adiar o fim a todo custo. Morrer deve acontecer no tempo certo. Com conforto e livre de dores, de preferência.

O médico atente pacientes de Campo Mourão e pelo menos 10 cidades da região. Também já acompanhou pessoas fora do Estado com doenças incuráveis. “A maioria das pessoas associa cuidados paliativos ao câncer, mas temos vários pacientes com doenças crônicas em estágio avançado que recebem cuidados”, diz. Estão em tratamento também pacientes com doenças neurodegenerativas, como as demências (Alzheimer, Parkinson).

O serviço envolve equipe multidisciplinar, com psicólogo, farmacêutico, assistente social, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e outros profissionais, para o manejo da dor. Tudo é voltado para a melhora de vida dos pacientes e familiares que estão enfrentando doença que ameaça a continuidade da vida.

Tabu

Falar sobre morte é um tabu, atesta o médico, porque existe a percepção de que a tratativa do assunto remete ao óbito efetivamente na prática. Albach afirma que as abordagens são uma formas de assistência humana e compassiva de preparar o paciente e os familiares sobre a morte para trazê-lo à realidade da praticidade no tempo que ainda resta.

De acordo com o especialista, o médico inserido no serviço de cuidados paliativos tem a principal função de administrar o controle dos sintomas físicos dos pacientes e a obrigação de perceber outras demandas, a exemplo do emocional e espiritual, e acionar profissionais para que possam ofertar cuidado holístico.

Ele cita como exemplo de construção de uma condição de conforto até o final da vida o caso de uma mulher de 40 anos diagnosticada com tumor em estágio avançado, em que as medidas de tratamento surtiram quase nenhum efeito.

A paciente, conta o médico, foi cuidada inicialmente durante as internações hospitalares e posteriormente na residencia várias vezes por semana. “Também demos suporte ao marido e abordamos questões práticas que ela gostaria de deixar para ele”, afirmou.

Segundo o médico, as últimas semanas foram difíceis, mais pela sobrecarga emocional, porque a pessoa percebe que está morrendo. Mas pela própria característica da medicina paliativa, analisa Albach, de uma abordagem humanística mais próxima à chamada medicina tradicional, a paciente teve a chance de passar os últimos dias em casa com a família. “É muito triste a pessoa morrer de uma doença incurável entubada em um UTI, sem a família, o ambiente domiciliar”, diz.

No desenvolvimento de modelos de atenção em cuidados paliativos, especialistas afirmam que os últimos meses de vida, quando o sofrimento do paciente se torna mais agudo, os gastos com internações e terapias são reduzidos com a prática da especialidade.

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