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Adelaide Salvadori: uma gaúcha determinada que aos 92 anos é protagonista viva da história de Campo Mourão

Ela e o marido, o empresário Rosalino Mansuetto Salvadori, migraram do RS em 1953 e cresceram com a cidade

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Da sacada do apartamento no 14º andar, repleta de antúrios, Adelaide Salvadori, 92 anos, avista Campo Mourão com seus prédios, movimento de carros e loteamentos sendo abertos com a certeza da satisfação de ter contribuído com esse desenvolvimento. Pioneira, ela chegou em 1953, seis anos depois da emancipação política e econômica do município por lei assinada pelo então governador Moysés Lupion. O cenário assustou, uma cidade ainda em estruturação, com ruas de terra e pouco comércio.

O pioneirismo exigiu de Adelaide, uma senhora tranquila que hoje preenche os dias com leitura de jornais, revistas, livros, noticiário político na tevê, caminhadas e pilates, força e determinação para trabalhar junto com o marido : o empresário e ex-prefeito Rosalino Mansuetto Salvadori, que morreu aos 83 anos, em 2008, no dia 8 de dezembro, data de seu aniversário.

Os dois, que se conheciam desde criança, casaram-se em 1949 e foram morar em Lagoa Vermelha (RS). Rosalino trabalhava em uma madeireira e resolveu migrar para o Paraná em busca de mais oportunidades no comércio de madeira, com a esposa e o filho pequeno, com 2 anos, Gerson Salvadori, economista e empresário do agronegócio.

A primeira parada foi uma propriedade rural na comunidade Campina da Lizeta, no município de Luiziana. Ronalino montou uma serraria, trouxe gente para trabalhar, construiu uma casa e também vieram o pai e irmãos do Rio Grande do Sul. “Ele falava que via os cinco irmãos trabalhando sem futuro onde estavam. Não se sentia bem ao ver a família do pai com dificuldade para trabalhar”, diz.

Adelaide diz que a paixão do marido por madeira veio do pai, que teve uma serraria no Rio Grande do Sul. Para ela, ele foi um visionário nos negócios, mas “sofria muito” porque se sentia responsável por toda a família. “O começo foi tudo muito difícil.”

Da propriedade, a família se mudou para a cidade, Campo Mourão, em meio ao poeirão e até alguns episódios de tiroteios nas ruas protagonizados por moradores, para um prédio onde funcionava uma quintana. O móvel foi alugado até que toda madeira ficasse pronta para a construção da casa. Em um vendaval, Adelaide afirma que foi a primeira vez que se decepcionou com o novo lugar. “Chorei, poque tinha um colcha branca de cama que ficou marrom de poeira. Disse: não é possível, não vou morar aqui.”

Em meio a dificuldades cotidianas na cidade em formação, a melhor maneira foi um amparar o outro. “Ele dizia que estávamos começando a vida e que, em 6 ou 7 anos, as condições seriam melhores”, disse.

Adelaide afirma que o marido se preocupava com os familiares, ficava noites sem dormir para encontrar soluções para os problemas deles porque queria que todos ficassem bem. “Ele se saiu bem na vida, trabalhou muito. E eu tinha que ser forte porque quando ele queria desistir estava ao lado dele.”

Rosalino fazia viagens a Curitiba e Adelaide ficava em Campo Mourão para cuidar do negócio de comércio de madeira. Com um jipe estacionado na garagem, ela andava a pé e chegava a ir quatro vezes em um mesmo lugar durante o dia por demandas do trabalho. “Então pedi para um vizinho, um menino de 13 anos, me ensinar a dirigir. Ele dava até bronca em mim, mas aprendi”, disse.

Dirigir o jipe – era umas das poucas mulheres que fazia isso na cidade na época – facilitou a vida também quando Rosalino se candidatou a vereador, em 1963. Ela saia de carro para fazer campanha e levava uma “adversária” no banco do carona, Amelinha Hruschka, que já foi deputada estadual por Campo Mourão, e fazia campanha para o marido Alfonso Germano Hruschka à Câmara. “Quando descíamos do carro, falava: eu vou pra cá e você pra lá”, diz.

Os resultados foram Rosalino vereador mais votado e Alfonso, o segundo com mais votos. As duas mantém a amizade e as famílias ficaram mais próximas porque o neto de Adelaide, o advogado e empresário Mansuetto Salvadori, casou-se com a neta de Amelinha, a biomédica Naiany Bolognesi Hruschka Salvadori, coordenadora Nacional de Políticas Afirmativas da Secretaria Nacional de Igualdade Racial (Seppir).

Amiga do bispo Eliseu Simões Mendes, que ficou à frente da igreja católica de Campo Mourão até 1980, Adelaide participou de inúmeros projeto sociais voltados a gestantes e crianças e buscou doações de empresários para construção de um um hospital e ajudar escolas. “O primeiro no qual batia a porta era o Rosalino, porque a doação dele tinha que ser maior para dar exemplo aos outros.”

Para Adelaide, a maior satisfação ao relembrar a trajetória da família em Campo Mourão é ver que ela e o marido alcançaram o objetivo de quando deixaram o Rio Grande do Sul para morar em uma “terra desconhecida”, de formar e encaminhar a família.

O filho mais velho, o agropecuarista Gerson Salvadori, nasceu no Rio Grande do Sul. A filha Ody Salvadori, educadora física e fisioterapeuta, em Campo Mourão. Ela tem seis setos e sete bisnetos. “Sinto-me muito feliz porque criei uma família unida. Meus filhos e netos estão formados, todos trabalhando. Isso é realização.”

Rosalino

Rosalino se elegeu vereador em 1963, o mais votado, pelo extinto Partido Democrático Cristão (PDC), e assumiu a presidência da Câmara. No ano seguinte, em eleição interna no Legislativo, pela Emenda Constitucional 6/1964 disputou o cargo de vice-prefeito e empatou em votos com o vereador Horácio Amaral. Por ser uma o mais velho que Amaral – 2 meses de diferença -, o Tribunal Regional Eleitoral confirmou Rosalino como vice-prefeito e a posse ocorreu em 1º de maio de 1964, no Cine Plaza.

Com a renúncia Milton Luiz Pereira ao cargo de prefeito, em abril de 1968, para exercer o cargo de juiz federal, Rosalino assumiu a prefeitura em uma época em que Campo Mourão foi escolhido pelo Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (Inda) o “Município Modelo do Paraná”.

Com problemas de saúde, Rosalino renunciou ao cargo de prefeito em fevereiro de 1968. O presidente da Câmara, Augustinho Vecchi (MDB), aliado político do empresário, assumiu o cargo.

O empresário foi o primeiro presidente da Companhia de Desenvolvimento, Urbanização e Saneamento de Campo Mourão (Condua), criada em setembro de 1966, empresa responsável pelas obras do Mercado Municipal, estação rodoviária a da pavimentação das vias públicas do centro da cidade.

Projeto de autoria do Executivo, de agosto de 1967, foi responsável pela implantação do Fundo Municipal de Ensino Superior, responsável pela manutenção da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e da Fundação Educacional de Campo Mourão, o que abriu as portas da cidade para criação de faculdades.

Também foi presidente da Associação Comercial de Campo Mourão (Acicam), fundador e e presidente da Cooperativa de Eletrificação Rural de Campo Mourão e já liderou a Fundação Educacional de Campo Mourão.

Rosalino inciou o empresariado com o comércio de madeiras. No final dos anos de 1970 fundou a Comasa – Comércio de Máquinas Salvadori, para comercialização de equipamentos agrícolas e depois adquiriu terras no Paraná, Mato Grosso e Paraguai.

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