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“Estamos esquecidos”, diz deficiente visual em Campo Mourão

Associação dos Deficientes não funciona mais por falta de incentivo da prefeitura

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As barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência em Campo Mourão não se resumem às arquitetônicas, que reduzem a mobilidade. A dificuldade também está na falta de atenção da prefeitura, tanto que a Adevicampo (Associação dos Deficientes Visuais) parou de funcionar por falta de incentivo.

“Estamos esquecidos e é muito triste isso”, diz João Maria Ferrari Chagas, 54 anos, presidente da entidade e do Comude (Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência).

As reuniões da Adevicampo, criada em 2000, eram feitas na casa de João Maria, depois no Caic (Centro de Apoio Integral à Criança e ao Adolescente) e por, último, na Biblioteca Municipal. “Hoje não temos mais lugar e nem incentivo da prefeitura”, disse.

Segundo João Maria, a dificuldade é desde conseguir na rede pública uma bengala guia, que custa cerca de R$ 50, até a falta de recursos para manter a associação que vinha lutando pela garantia de direitos dos deficientes visuais, programas e atividades. “O gestor público não dá ouvidos para as adversidades da sua cidade. A barreira maior não é a arquitetônica, mas as atitudes das pessoas que não têm o olhar amplo da inclusão”, afirmou.

De acordo o presidente da Adevicampo, a falta de incentivo governamental desmotivou integrantes da associação que foi formada por um grupo de pessoas que estudavam o sistema braile e mobilidade no Caic. Em seguida foi criado o Comude, um dos primeiros do interior do Paraná. “Quando o meio não oferece chances da pessoa ser incluída, ela vai ficando à mercê da própria sorte.”

Segundo João Maria, a realidade é que não existe nenhuma forma de incentivo do município para que pessoas com deficiência possam ter uma vida melhor. “A gente não precisaria sentir na pela para as pessoas tomarem alguma atitude.”

A PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) considera que 3,6% dos brasileiros têm deficiência visual. Dentro dessa proporcionalidade, em Campo Mourão seriam 3,4 mil pessoas.

Mobilidade

Portador da doença de stargardt, que causa a morte de células na porção central da retina, João Maria tem 2% da visão e diz que caminhar pelo bairro onde mora, o Jardim Pio 12, e no centro da cidade é uma “aventura arriscada”.

Na região central, apesar do decreto 4.763, de 2010, exigir piso tátil – material em alvo relevo – em apenas parte das calçadas existe o equipamento de mobilidade. “Nos bairros, a pessoa pode até andar nos lugares em que decora com ajuda de alguém. No centro precisa de fiscalização para a lei ser cumprida. É possível melhorar”, afirmou.

Ao longo da Avenida Capitão Índio Bandeira, uma das principais vias da cidade, o piso tátil não tem prosseguimento no passeio. Exite em frente a alguns estabelecimentos e em outros não.

No bairro, João Maria precisa disputar as ruas com os veículos porque a irregularidade das calçadas não dá condições para ele caminhar. E, em alguns pontos, não há calçamento.

Ele diz que em Campo Mourão, somente de quatro a cinco deficientes visuais circulam pelas ruas. A maioria tem medo de sofrer algum acidente por causas das dificuldades impostas por uma cidade que não não se importa com eles.

A irmã de João Maria, Ivone de Fátima Bahia, que também tem cerca de 2% da visão por causa da doença de stargardt, diz que as calçadas em Campo Mourão são largas em comparação com São Carlos (SP), cidade onde mora, mas não favorecem a mobilidade por pela falta do piso tátil. “Aqui tem tudo para ser muito melhor”, afirmou.

De acordo com João Maria, a falta de semáforos também dificulta andar no centro da cidade. “Tenho medo de atravessar a Avenida Goioerê. É muito arriscado. A Avenida Presidente Kennedy não atravesso mais”, diz.

Prefeitura

O secretário municipal do Controle, Fiscalização e Ouvidoria, Cristiano Augusto Vasconcelos Calixto, disse que multas estão sendo aplicadas em quem não cumpre a legislação que regulamenta critérios para construção, reconstrução ou reparação de passeios e que a pasta tem exigindo adequações dos proprietários de imóveis.

No entanto, o secretário não informou quantidades de notificações ou multas aplicadas em donos de imóveis em desacordo com a legislação.

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