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Meio Ambiente

A reciclagem impulsionada pela pobreza

Em Campo Mourão, catadores independentes coletam maior parte do material reciclável separado pela população

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O catador José Carlos de Almeida, 45 anos, sai de casa cedo para recolher material reciclável nas ruas antes que o caminhão-baú da Seleta Meio Ambiente faça a coleta. Dezenas fazem isso diariamente em Campo Mourão com carrinhos de mão, motos e até utilitários. O cálculo é que 70% do que é separado pela população é levado por catadores independentes e o restante é transportado pela empresa contratada pela prefeitura para três cooperativas que viram o volume de material diminuir até 30% nos últimos meses por causa da disputa pelo reciclável.

No garimpo de materiais recicláveis na cidade, o “ouro” é a latinha de alumínio. As cooperativas vendem a cerca de R$ 3,80 o quilo.

Dados da Abal (Associação Brasileira do Alumínio) e Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio) mostram que no Brasil 97,3% das latinhas de alumínio produzidas são recicladas, um dos maiores índices do mundo, à frente até mesmo da Alemanha que, conforme o gabinete de estatísticas da UE (União Europeia), o Eurostat, tem a taxa de reciclagem de lixo de 67,6%, a mais alta da Europa.

Mas o que impulsiona o índice de reciclagem de latinhas não é a consciência ambiental do brasileiro, diferente da realidade europeia, já que de acordo com o PNRS (Plano Nacional de Resíduos Sólidos), dos 30% de todo o lixo produzido com potencial de reciclagem, apenas 3% é reaproveitado.

Em Campo Mourão, a Seleta Meio Ambiente calcula que 50% das 1.800 toneladas de lixo que vão mensalmente para o aterro sanitário poderiam gerar renda, mas isso não acontece poque nem todo morador faz a separação. “O aproveitamento poderia ser muito melhor”, diz o gerente da empresa, Gustavo Pascan.

Quem alavanca o índice de reaproveitamento do lixo são cooperativas e catadores independentes a exemplo José Carlos, que anda diariamente cerca de 20 quilômetros por dia em Campo Mourão em busca de metais, papel e plástico com um carrinho que chega a pesar 200 quilos. “Nós temos que ajudar o planeta”, disse o catador.

Desempregado, José Carlos recolhe material reciclável nas ruas para vender há 4 anos. Na quinta-feira (15), começou o trabalho às 7h, antes do caminhão da Seleta passar para fazer a coleta. “Tem que ‘pular’ cedo porque tem o caminhãozinho e um monte de gente fazendo o mesmo, mas não pode parar ou desistir. Tem que ser guerreiro”, afirmou.

Em junho deste ano, Campo Mourão registrou em junho saldo negativo de 46 postos de trabalho com carteira assinada, resultado de 601 admissões e 647 demissões, conforme o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). No acumulado do primeiro semestre, o desempenho foi de 216 postos de trabalho, com 4.552 contratações e 4.336 deligamentos. Nos últimos 12 meses encerrados em junho, o saldo é de 814 vagas formais.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o rendimento médio em Campo Mourão é de 2,5 salários-mínimos, o 527º do país e 29º do Estado.

Cooperativas

A empresa de coleta transporta cerca de 45 toneladas de material reciclável mensalmente para a Cooperesíduos (Cooperativa Resíduo Solidário) e 35 toneladas para a Associguá (Associação de Arrecadação de Materiais Recicláveis da Vila Guarujá).

Uma terceira cooperativa, a AKE, começou a receber materiais recicláveis a partir deste mês e ainda não há informações sobre quantidade.

Segundo a presidente da Cooperesíduos, Marcinete Carriel de Oliveira, o volume de material diminuiu até 30% neste ano devido aumento de catadores independentes na cidade. “Uma parte está indo para o aterro porque a população não separa o lixo corretamente e há muitos catadores competindo. Tem gente com caminhão, carro baixo e carinho de mão”, disse.

A Cooperesíduos está com 14 cooperados – 10 em atividade e quatro estão afastados com auxílio -doença -, mas já chegou a operar com 20. “Estamos tentando manter esses com o volume de material que caiu muito”, afirmou Marcinete.

A maior parte do material que chega na cooperativa é vendida, outra é descartada e uma parcela fica no estoque à espera de preços melhores, o que aumenta o poder de negociação e ganhos dos cooperados.

A prefeitura, a Seleta Meio Ambiente e as cooperativas não sabem informar a quantidade de catadores independentes em Campo Mourão, mas dizem que “são dezenas”. Em alguns bairros há pontos irregulares de armazenamento de material reciclável.

Conforme a prefeitura, cada cooperativa recebe R$ 2.500 de incentivo por mês. A Cooperesíduos ficou 8 meses sem receber a verba e deixou de pagar o aluguel de R$ 3 mil do barracão, no Jardim Vitória, no período “Houve um atraso, mas agora a prefeitura já está acertando com a gente”, diz a presidente da Cooperesíduos.

Segundo a administração municipal, os pagamentos não foram efetuados à Cooperesíduos por problemas na documentação da cooperativa.

A Seleta Ambiental faz a coleta de material reciclável duas vezes em regiões diferentes de Campo Mourão. Na área central, o serviço é realizado na quarta-feira e sábado.

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