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Dia do Soldado

Profissão de risco e orgulho

Reportagem do i44News acompanhou equipe da Rotam durante a madrugada; tensão, prisões e emoção

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A despedida do casal a cada turno de trabalho é realizada em clima de dualidade: de um lado, o orgulho pela profissão exercida pelo marido, do outro: a incerteza sobre os perigos da atividade um das mais estressantes do mundo – e, pior ainda, se haverá volta para casa.

É nesse clima que o soldado Ronaldo Alves, 37 anos, despede-se da esposa e segue para mais uma noite como um dos componentes das viatura da Rodas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam), unidade operacional de elite da Polícia Militar no 11º Batalhão de Polícia Militar em Campo Mourão.

Para os dois, a possibilidade do “sair de casa de casa e nunca mais voltar” rodeia os pensamentos. “Ele sai de casa e a gente fica com o coração apreensivo”, diz Camila Moreira Alves, 33 anos, comerciante, esposa de Ronaldo. “A maior dificuldade é saber que em uma ocorrência malsucedida é preciso deixar a família”, disse o soldado.

Já no interior do batalhão policial, Ronaldo se junta ao soldado Raphael Rogenski de Mello, 37, e ao cabo Osmar Vanderlei de Paula, 47, para mais uma madrugada de trabalho nas ruas. Na madrugada de sexta-feira (23), o serviços deles é acompanhado por uma equipe de reportagem do i44 News.

O turno começa à meia-noite e vai até as 6h. É a “Escala Corujão”, montada pelo batalhão para coibir roubos e furtos em residências e estabelecimentos comerciais que, no primeiro semestre deste ano, motivaram manifestações de moradores por ações mais incisivas das forças de segurança pública.

Entre janeiro e 26 de junho deste ano, a PM registrou 309 furtos e cinco roubos a residências e 118 furtos e 23 assaltos a estabelecimentos comercias no município. “Tivemos uma onda de furtos e o comando achou por bem, além do policiamento ordinário, colocar mais uma equipe de apoio para reforçar o policiamento na madrugada”, diz o cabo De Paula.

Antes do início do trabalho, é realizada a verificação de equipamentos no espaço da Rotam. São conferidos coletes balísticos e o armamento, pistolas .40, fuzis 556 e metralhadora 9 milímetros. Depois da inserção da viatura, uma camionete, no sistema para acompanhamento, hora de ir ao Copom (Centro de Operações Policiais Militares) para verificar as ocorrências.

A equipe está pronta e na rua, já com um chamado pelo 190 que há uma pessoa com um lanterna andando no mato em uma estrada de terra que liga os bairros Jardim Cidade Nova e Conjunto Habitacional Milton de Paula Walter, na periferia da cidade.

Nada foi encontrado e os três seguem em patrulhamento. Segundo o cabo, a equipe roda, em média, 160 quilômetros por turno. No Cidade Nova, um homem é abordado na esquina e outro na sequência, na mesma rua, mais adiante.

A prática é de um para fazer a revista, outro acompanhar ao lado e o terceiro posicionado no perímetro. A equipe formada por três policiais deveria ser de quatro, mas o batalhão está com o efetivo em queda.

De acordo com o comandante do 11º BPM, tenente-coronel Julio Cesar Vieira da Rosa, desde de julho de 2017, quando assumiu o comando, houve diminuição de 32% do efetivo por conta de aposentadorias e transferências. 

A estratégia, então, tem sido colocar policial do setor administrativo nas ruas fazer o trabalho ostensivo. A filosofia de trabalho é a “operação 0,1%”, que consiste na abordagem de 0,1% da população diariamente, o que em Campo Mourão são 99 pessoas.

Na madruga que o i44 News acompanhou o trabalho, a equipe da Rotam abordou 18 pessoas, quatro veículos e duas motocicletas. “O princípio do trabalho é a abordagem e a sociedade tem colaborado muito por meio de denúncias anônimas pelo 190 e 181”, afirmou Osmar de Paula.

Do Jardim Cidade Nova, a Rotam seguiu para uma fazenda em Peabiru, local onde havia uma chamada sobre um carro estar rondando a propriedade. O alerta foi de possível assalto, mas a equipe fez varredura no local e não encontrou nenhum suspeito.

No caminho para a fazenda, a reportagem perdeu de vista o veículo da Rotam e aguardou na rodovia BR-158. Cerca de 30 minutos depois, a caminhonete passou em alta velocidade e se deslocou para os fundos do parque de exposições para verificar mais uma ocorrência, que terminou com a prisão de um jovem que portava uma pistola 9 mm e de um carro em uma casa noturna.

O rapaz estava com outro e conseguiu fugir. A dupla entrou armada em um estabelecimento comercial na Rua Edmundo Mercer à procura de um homem e depois em um lanche na Avenida Capitão Índio Bandeira. Colocou a arma no balcão para intimidar o comerciante, pediu três cervejas e saiu.

Enquanto os policiais com dois veículos da RPA (Rádio Patrulha Auto) fazia a prisão do suspeito, a Rotam foi em busca do rapaz que fugiu, mas não conseguiu localizá-lo.

Novamente, a reportagem não conseguiu acompanhar a Rotam e parou em um estabelecimento na Avenida Capitão Índio Bandeira. Na calçada, uma mulher gritava que havia sido agredida por um homem que estava dentro de um bar.

A Rotam chegou no momento e que o homem colocava a chave na porta do carro para ir embora. No fim, a mulher não quis representar, apesar de ter alegado que levou dois tapas no rosto. Ele estava com uma lesão no pescoço e segurava um guardanapo de papel que passava insistentemente no olho, sugerindo que fora atingido por ela no local. 

Na calçada, os curiosos que estavam bebendo cerveja em copos de plástico foram dispersados pelos policiais, apesar da “lei seca” de Campo Mourão permitir a venda de álcool até a meia-noite e de sexta-feira, sábado e véspera de feriado até as 2h. O estabelecimento fecha no horário, mas tem uma janelinha que entrega bebidas na calçada.

Do bar, a Rotam seguiu para um albergue na Rua Pedro Flórida Alcântara, no Jardim Ione. O responsável ligou para o 190 e relatou que um homem, por volta das 2h, o ameaçou e jogou pedras na casa por não tê-lo deixado entrar. Quem cuidava do albergue explicou aos policias que o horário limite de acolhimento é meia-noite.

A Rotam encontrou o suspeito de forçar a entrada no albergue nas proximidades, na Avenida Perimetral Presidente Tancredo Neves. O responsável pelo chamado não quis representar e o homem foi liberado pela Rotam.

Próximo das 4h, o turno da equipe da Rotam ficou mais calmo, com uma chuva fina e ruas quase vazias. Mas as abordagens continuaram, mais pessoas, motos e carros. Nas ações não foram encontrada irregularidades. “O que estamos fazendo é uma resposta do batalhão à cobrança da sociedade por mais segurança e vem dando resultado”, disse Osmar de Paula.

Sentimento

Camila e Ronaldo têm um filho de 7 anos e ela disse que já se acostumou com o trabalho do marido, que está há 12 anos na PM e já foi recruta do TG (Tiro de Guerra) de Campo Mourão. “No começo foi um pouco difícil. Hoje eu entrego nas mãos de Deus. É uma profissão maravilhosa, que ele gosta e Deus está na frente”, afirmou.

Ronaldo diz que a maior satisfação do serviço policial é o reconhecimento de ações que devolveram segurança, paz e bens levados de pessoas vítimas de criminosos. “A melhor cosia que presencio é a gratidão das pessoas pelo trabalho que estou exercendo. ”

No entanto, a o trabalho bem executado não dissipa o temor da possibilidade de não voltar para a família depois de um dia trágico. “É o pensamento sobre o risco da profissão. A gente também ora para nos livrar do perigo”, afirmou.

Osmar de Paula, policial militar há 22 anos, e Raphael, há 13 anos na corporação, também têm filhos crianças e esposas. “Penso todo dia ir ao trabalho e voltar. Procuro resolver as ocorrências da melhor forma possível para não levar nenhum problema para a minha família”, diz Osmar de Paula.

Camila resume a profissão do marido e dos colegas dele com a palavra honra, como a história de Duque de Caxias, patrono do Exército, que ficou conhecido como “o pacificador” por impedir rebeliões contra o Império. Por seus feitos, o Dia do Soldado, em 25 de agosto, é em sua homenagem.

Osmar de Paula afirma que a maior satisfação é servir a comunidade e prender pessoas que comentem delitos, que não sabem conviver em sociedade, e apresentá-las à Justiça. “A gente espera resposta da Justiça para segurar esses cidadãos presos, que fiquem mais tempo na cadeia para não ficarem incomodando.”

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