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Saúde

Com corte de verba pela prefeitura, paciente que tentou suicídio 3 vezes não consegue consulta com psicólogo

Atendimento não é feito porque a prefeitura de Campo Mourão reduziu cota de consultas no Cis-Comcam

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Com a redução da quota da prefeitura de Campo Mourão no Cis-Comcam (Consórcio Intermunicipal de Saúde da Comunidade dos Municípios da Região de Campo Mourão), que no mês passado chegou a 75%, consultas em especialidades médicas, exames e atendimentos com psicólogos despencaram. Um paciente de 34 anos que tentou suicídio três vezes em setembro e faz uso de medicação controlada não consegue dar continuidade ao tratamento pelo município e foi preciso o psicólogo atender gratuitamente pela situação de emergência.

Os agendamentos que eram feitos nas UBS (Unidade Básicas de Saúde) foram concentrados desde o mês passado na Secretaria Municipal de Saúde. O paciente, que prefere não se identificar, fez oito sessões com o psicólogo, em setembro não conseguiu nenhuma e está na fila da consulta no Cis-Comcam pela prefeitura. “Venho tendo crises convulsivas muito fortes e perda da vontade de viver. Foi preciso buscar um psicólogo. Estou na espera, sem saber quando serei atendido pelo município”, disse o paciente.

Ele toma quatro tipos de medicamentos, valproato de sódio, anticonvulsivantes e estabilizador; diazepan, indicado para ansiedade; olanzapina, antipsicótico; e carbonato de lítio, para tratamento de episódios maníacos.

Segundo o psicólogo clínico Vitor Augusto Lima Thomazini, mesmo com o informe de que o caso do paciente é de urgência, a Secretaria de Saúde não fez o agendamento e não há previsão de data para a atendimento dentro da cota da prefeitura no Cis-Comcam. “É enfrentar uma fila sem saber o mês que será atendido. É um desacato para quem precisa da ajuda do psicólogo”, afirmou o paciente.

Thomazini decidiu continuar o tratamento por considerar que é um caso de risco. Ele não vai cobrar do pacientes e também não vai receber da prefeitura a sessão desta quarta-feira e mais duas nas semanas seguintes. “Mesmo a gente especificando paciente em estado mais crítico não enxerga o atendimento sendo priorizado”, diz.

Conforme o psicólogo, ele atendeu 37 pacientes encaminhados pela prefeitura de Campo Mourão em abril, 43 em maio, 35 em junho, 32 em julho e 41 em agosto. Já em setembro, o número caiu para 12 e nesta semana nenhum foi atendido.

Para Thomazini, a estratégia da Secretaria de Saúde tirar os agendamentos nos posto de saúde e concertar no órgão é uma forma de dificultar o acesso do paciente ao tratamento. “O paciente não pode ser prejudicado com questão econômica ou política da cidade”, afirmou.

Segundo o Cis-Comcam, em setembro, a prefeitura baixou de R$ 200 para R$ 50 mil a quota de atendimentos. O valor é suficiente para cobrir 1.11 consultas médicas. Ofício enviado pela administração municipal ao órgão justificado que os recursos serão normalizados a partir de 2020.

Em uma reunião do Comus (Conselho Municipal de Saúde) na semana passada, o secretário de Saúde, Sérgio Henrique dos Santos, afirmou que a redução no orçamento no Cis-Comcam será de R$ 700 mil até o final de 2019 para o município fazer aportes na Previscam (Previdência Social dos Servidores Públicos de Campo Morão).

A prefeitura informou que haverá reduções em todas as áreas do município por conta da baixa arrecadação e que as consultas com especialistas estão sendo realizadas com prioridade aos casos de urgência.

Números apresentados pela Secretaria Municipal da Fazenda e Administração em audiência pública na sexta-feira (27) mostram que a prefeitura arrecadou R$ 234,6 milhões de janeiro a agosto deste ano e que o valor é 5,48% maior ante o mesmo período em 2018.

“Setembro Amarelo”

No mesmo mês em que o paciente que tentou suicídio três vezes não conseguiu atendimento psicológico pela prefeitura no Cis-Comcam, a Secretaria Municipal de Saúde fez o lançamento na Praça São José da campanha “Setembro Amarelo”, de prevenção ao suicídio, com distribuição de panfletos, brindes rodas de conversa, dinâmicas, apresentações culturais e também enfeitou a cidade com flores amarelas em canteiros para chamar a atenção da população.

“Temos campanha contra o suicídio e a prefeitura coloca duas cotas de consultas com psicólogo para uma gama de pessoas”, diz o paciente.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) coloca que nove em cada 10 mortes por suicídios poderiam ser evitadas com medidas preventivas, educação a atendimento em saúde.

De acordo com o psicólogo, o trabalho envolve empatia – capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa – e é irônico a prefeitura promover campanha de prevenção ao suicídio e não dar atendimento à população. “O que a gente encher é um estado desesperador.”

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