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Vida e Estilo

Comunidade ucraniana com nome de exército em Araruna é garantia de sossego e comida boa

Cerca de 50 famílias vivem na comunidade UPA que têm na religião e culinária a manutenção da cultura ucraniana

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No fogão à lenha de 1968 da casa da família Mormul, em Araruna, na região de Campo Mourão, vai ser preparar para o jantar nesta terça-feira (22) perohe (pastel cozido recheado). O prato é típico do país europeu e está entres os preferidos de aproximadamente 50 famílias de descendentes de ucranianos que moram em chácaras e sítios às margens da BR-487 e formam uma comunidade com 80 anos de história.

Na cozinha, Dionísio Mormul, 61 anos, e Rosa Petel Mormul, 60, ensinam a neta Daiane, de 1 ano e 2 meses, a chamar ele de didus (avô em ucraniano) e ela de babusya (avó) enquanto preparam o almoço no fogão à lenha branco com flores vermelhas pintadas.

O almoço foi bem brasileiro, feijão, carne assada, purê de batata e salada de alface colhida na horta. Mas à noite vai ter perohe, provavelmente com recheio de carne.

Perohe está presente no cardápio da família Mormul de uma a duas vezes por semana. Também tem com frequência holubtsi (enroladinhos de repolho rechegado com carne) e hrin (beterraba com raízes ardidas).

A manutenção da cultura ucraniana na comunidade têm na culinária e na religião suas expressões mais fortes. A etnia no Estado tem como base organizações religiosas, sendo majoritária a igreja greco-católica e ortodoxa, que fazem eventos com pratos típicos com muita autoridade.

O pai de Dionísio, Ladislau Mormul, migrou de Prudentópolis (a 265 km de Campo Mourão), município paranaense com a maior colônia ucraniana no Brasil, em 1939. Uma viagem de 40 dias a bordo de um “carroção” em companhia da mulher e o primeiro filho para abrir um sítio e começar uma vida nova. Dionísio e mais seis irmãos nasceram na comunidade. “Foi um vida muito trabalhosa porque era tudo mata e foi tudo na foice, no machado”, disse Dionísio.

O começo foi difícil. Araruna nem existia e em Campo Mourão, segundo Dionísio, havia apenas uma raia de cavalo e uma delegacia. “Tinha que fazer compra de carroção em Maringá. E vendíamos porco em Maringá também. Era dureza”, diz.

Dos quatro filhos de Dionísio, um mora na comunidade, ao lado da casa dele, outro no patrimônio São Geraldo, nas proximidades, uma em Ponta Grossa. Outro é falecido. Na propriedade, eles plantam mandioca, soja e fumo. “A gente aprendeu muitas coisas com os pais e estamos ensinando os filhos e netos. Vamos seguindo”, afirmou.

A comunidade ganhou o nome UPA, que é a sigla de Ukrayins’ka Povstans’ka Armiya (Exército Insurgente da Ucrânia), movimento de liberação nacionalista na forma de organização militar. Cerca de 150 pessoas vivem nas propriedades rurais que formam a comunidade. “Não saio daqui porque tenho muito sossego. Para a cidade nunca que vou”, diz Dionísio.

No km 162 da Estrada boiadeira fica a igreja São Pedro, que faz parte da Paróquia Santíssima Trindade, que completou 60 anos em agosto. No livro a “A Saga da Imigração Ucraniana em Campo Mourão e Região”, a autora Maria Meskiw Melnisk afirma que as comunidades em Campo Mourão e Araruna, Farol, Mamborê, Juranda e Maringá, que compõem a Paróquia Santíssima Trindade, são formadas por cerca de 350 famílias.

Na comunidade UPA há amigos e parentes que têm estilo de vida parecidos. Vivem em chácaras ou sítios, em casas de madeira. A residência de Dionísio foi construída pelos pais na década de 1940. “Em outro lugar não acho amigos de confiança assim”, diz Dionísio

Do outro lado da estrada da propriedade de Dionísio vive a família de João Meskiw Neto, 64 anos, que também é neto de ucraniano e nasceu na comunidade UPA. Da mesma forma, os pais dele saíram de Prudentópolis para se instalarem em Araruna. “Sou nascido e criado aqui com orgulho”, afirmou.

Aposentado, João planta na chácara milho, feijão, arroz e criam animais para consumo da família. “A vida aqui é boa e para comer tem sobrando. Acompanhamos a tradição ucraniana, principalmente na comida.”

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