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Em casa de umbanda, quem mais procura ‘reza’ são político, comerciante e mulher que quer ‘amansar’ marido

Na sexta-feira 13, movimento costuma aumentar para ‘abrir caminhos, afastar o mal, inveja

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A casa de madeira fica nos fundos de um terreno em Peabiru, na região de Campo Mourão. O salão com altar repleto de imagens de santos católicos, do candomblé, caboclos, índios e pretos velhos, onde eram realizadas cerimônias de descarrego, está ocioso. Mas a sala de consultas, para sessões de “passe”, de reorganização espiritual, com pai Joaquim, ainda tem movimento.

Joaquim dos Santos Filho, 89 anos, é o sacerdote da casa de umbanda nos fundos de residência da família. Ele diz que comerciantes em busca de destravar os negócios, políticos que querem “abrir portas” e mulheres com a intenção de amansar os maridos são os maiores frequentadores. “Vêm prefeitos aqui falando que as coisas não estão indo bem eu ajudo eles”, afirmou.

São prefeitos e também vereadores. Joaquim afirma que em 2020, ano das eleições municipais, a tendência é que candidatos o procurem para que consigam a tão almejada vitória nas urnas.

No altar, padre Cícero – santo no coração do povo brasileiro não declarado pelo Vaticano – fica ao lado de Zé Pilantra, figura colocada pela umbanda como alguém que teve vida sofrida e foi negligenciado. Para o malandro, a oferenda é um cigarro e um copinho de aguardente. Eles mostram a mistura de elementos de religiões na umbanda.

Joaquim recorre a eles e outras imagens, entidades, para resolver problemas de quem o procura. Na sexta-feira 13, o sacerdote diz que o número de pessoas para consultas espirituais costuma ser maior. “Vem moça para pedir sobre o amor, senhora pedir para amansar o companheiro.”

As sessões de “passe” são feitas às segundas, quartas e sextas-feiras por pai Joaquim, que exibe nas paredes do barracão de madeira quadros com diplomas da década de 1970 expedidos pela Confederação Umbandista do Paraná, que lhe conferem o ofício de sacerdote da religião.

Ele já foi tropeiro e há mais de 40 anos exerce o sacerdócio umbandista. “Quando trabalhava em fazendas já tinha meus orixás ao lado.”

De acordo com sacerdote, no dia a dia, quem mais procura pela “reza” na sala de consultas são pessoas que querem abrir caminhos, desfazer o mal. São pobres e ricos com as mais diferentes profissões, desde a dona de casa até médicos de Peabiru, cidades do Paraná e outros Estados. “A pessoa precisou corre aqui para resolver coisas que não vão para frente. Vem fazendeiro reclamando que a criação está morrendo, que tem olho gordo nisso”, afirmou.

Em dezembro, por conta da busca por um ano mais glorioso, a procura também cresce na casa. Os pedidos são por melhores caminhos em 2020. “Para abrir as portas, espantar o mal, macumba, inveja,” disse.

Ele diz que quando o problema é mais grave recebe um guia que pode ser Zé Pilantra, Mané Baiano, um índio ou um preto velho, Pai João. “A entidade se manifesta para fazer a limpeza no corpo da pessoa.” Em “coisa mais leve”, cruza o corpo com benzimento por Nossa Senhora Aparecida. “Tudo é para despachar o problema”, disse.

Pessoas com enfermidades vão à casa à procura de cura, embora pai Joaquim diga que doença deve ser tratada com médico e que pode auxiliar em casos mais simples.

Com dores fortes no ombro, depois de tomar medicamentos via oral e injeções, o gráfico Cristiano Botelho Machado, 29 anos, foi à casa de umbanda e diz que foi curado. “Ele fez a reza e quase um mês depois a dor foi embora. Mas é preciso ter fé”, afirmou.

Na sala de consulta, uma placa sobre a mesa informa o valor sessão, anotado a giz, de R$ 50. Mas pai Joaquim afirma que ajudar quem pode e que o pagamento é espontâneo. “É para manter a casa, comprar velas e outras coisas que precisamos.”

O que é

Umbanda é uma religião afro-brasileira que surgiu no início no século 20 nos subúrbios do Rio de Janeiro. Foi fundada por Zélio Fernandino de Morais que, em 15 de novembro de 1908, teria incorporado o Caboclo das Sete Encruzilhadas e o espírito o teria ajudado a criar a religião.

O 15 de novembro entrou para a história como o Dia Nacional da Umbanda, que sintetiza vários elementos do candomblé, espiritismo e catolicismo. Especialistas dizem que a religião é candomblé sem sacrifícios de animais.

A palavra umbanda é do vocabulário quimbundo, de Angola, e quer dizer arte de curar. A religião foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 e, em 8 de novembro de 2016, após estudos do IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade), a umbanda foi incluída na lista de patrimônios imateriais.

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