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Pastor Adão e sua comunidade para resgatar dignidade

Em uma chácara em Campo Mourão, igreja mantém programa para dependência química sem muitos recursos

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A chácara ficas às margens da PR-559, na Vila Rio Grande, em Campo Mourão. As instalações são simples, de madeira, um terreiro para criação de aves, dormitórios e cozinha sem modernidades. Na entrada, a placa pintada à mão anuncia: “Comunidade Salvando Vidas”, coordenada por um pastor com tatuagens, que se veste sempre com calça, camiseta, tênis e que entende a linguagem das ruas.

Treze pessoas dividem o espaço hoje na chácara. Destes, quatro estavam em situação de rua e foram levados para a comunidade pelo pastor Adão Adriano na distribuição de marmitas para sem-teto pela Igreja Comunidade Salvando Vidas, que fica na Vila Cândida.

A comunidade existe há 11 anos. Projeto inicial, era para entregar refeições a moradores de rua. Mas hoje também acolhe dependentes químicos. “Deus colocou no meu coração e começamos a acolher pessoas”, disse o pastor.

Nesse tempo, o pastor calcula que 600 pessoas passaram pela comunidade, que é informal, não enquadrada em requisitos necessários de CTs (Comunidades Terapêuticas), por isto não possui convênios com o Senapred (Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas) ou outros órgãos governamentais para custeio. A comunidade sobrevive com doações e colaborações de familiares de internos.

O tratamento de 9 meses é fundamento em laborterapia, espiritualidade e reuniões motivacionais em grupo com pastores. A comunidade recorre ao SUS (Sistema Único de Saúde) para dar assistência aos internos.

Adão, fundador da igreja e da comunidade, diz que o propósito é o resgate da dignidade esfacelada pelas drogas e também pelas ruas. Ele afirma que o trabalho é o agradecimento pelos dois irmãos, um que foi usuário e outro envolvido com o tráfico de drogas, terem conseguido mudar de vida.  “Vim de uma família de dependentes químicos”, disse.

O pastor repete inúmeras vezes que o primeiro passo para se afastar de substâncias químicas é procurar ajuda. E o segundo é acreditar que é possível ser alguém ainda na vida. “Há pessoas que moravam na rua que hoje têm família.”

Para ele, o maior desafio é fazer que a pessoa em tratamento acredite nela mesmo porque somam perdas familiares, da dignidade e do respeito. “Tem que começar a ver a esperança e melhor forma disso é o amor, fazer a pessoa se sentir valorizada.”

Adão e João

Adão foge ao estereótipo do pastor engravatado. Veste calça jeans, camiseta, tênis e tem tatuagens. Também recorre a gírias. Um dos primeiros internos da comunidade teve resistência de fazer o tratamento na Salvando Vidas por não acreditar no contanto inicial que ele era pastor evangélico.

João Marco de Oliveira, 47 anos, que hoje é pastor também, diz que já tinha preparado a corda para cometer suicídio quando sua irmã pediu ajuda na igreja para que o irmão deixasse as drogas.

Ele começou a usar drogas com 11 anos. Consumia álcool com os irmãos e depois conheceu a maconha. Com 16 anos, passou a cheirar cola com os amigos da escola e a usar cocaína nas baladas no fim de semana.  

João afirma que quando conheceu o crack foi ladeira abaixo. Do consumo esporádico, a droga tomou conta de sua vida. Saiu da casa da mãe, perdeu o emprego e chegou a morar na rua em Goioerê e Campo Mourão. “Não conseguia pagar aluguel em lugar nenhum, trabalhava, mas o dinheiro que recebia era só para a droga”, diz.

Ele disse que foi “arrastado” para comunidade, depois de ficar devendo para traficantes e eles invadirem a casa da irmã dele para roubar, apesar de afirmar sustentava o vício poque trabalhava. “Nunca precisei roubar. Mas isso não é mérito porque eu roubava de mim mesmo.”

João diz que está limpo – sem consumir drogas – há 11 anos e hoje é voluntário na comunidade. Passa a maior parte do tempo nela com os internos. “A gente passa a perceber que existe e que merece ser feliz.”

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