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Em Campo Mourão, velha política faz cortesia com chapéu alheio em ano eleitoral

Ordens de serviço de janeiro a 8 de maio são 77% do total entre 2017 e 2019

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Os artifícios da velha política estão em evidência novamente em Campo Mourão. Com o esgotamento dos prazos eleitorais, a atual administração se esmera na maratona de “inaugurações”. Até banais assinaturas de ordens de serviço são transformadas em solenidades públicas e festivas, com a presença de pré-candidatos e correligionários.

Sempre reclamando – desde que assumiu o cargo em janeiro de 2017 – da falta de dinheiro no caixa municipal, o prefeito Tauillo Tezelli “não se faz de rogado” e anuncia uma série de obras, principalmente na área de recuperação da malha asfáltica da cidade.

Como num passe de mágica, em época de eleições o “dinheiro” reapareceu. O que o prefeito Tauillo Tezelli (Cidadania) não conta é que a cortesia é com chapéu alheio. A maior parte dos recursos é oriunda de empréstimos que a atual e as próximas gestões terão que pagar. As ordens de serviço assinadas entre janeiro a 8 de maio somam R$ 16.777.833 e representam 77% do montante verificado entre 2017 e 2020.

Levantamento feito pelo i44 News a partir de releases sobre ordens de serviço assinadas pelo prefeito e divulgados pela assessoria de comunicação para promoção das ações da prefeitura mostra que o total em três anos de governo foi de R$ 21.691.903. São R$ 72 mil em 2017; R$ 7.976.820 em 2018; e R$ 13.643.083 em 2019.

A ordem de serviço com maior valor neste ano, de R$ 5,2 milhões, foi assinada por Tauillo no dia 8 de maio. Segundo a prefeitura, a cifra é para pavimentação do Jardim Silvana e os recursos são de empréstimo do governo do Estado.

Nas solenidades para assinatura das ordens de serviço, o prefeito tem tido a companhia de vereadores, deputados, presidentes de associações de bairros. São eventos para mostrar que a prefeitura está investindo em obras e transformando a cidade em “um canteiro de obras”, como o prefeito costuma dizer.

No Jardim Silvana, no dia 8 de maio, Tauillo se cercou de lideranças do bairro e vereadores e do deputado estadual Douglas Fabrício (Cidadania). Teve até presença do ex-vereador, Isidoro Moraes, incumbido de representar o secretário estadual do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo, Márcio Nunes.

No discurso, Tauillo afirmou que a prefeitura vai resolver “um problema de 30 anos” com a pavimentação asfáltica do bairro na periferia, mas não mencionou que a dívida contraída pela administração será paga até pela próxima gestão.

“Está evidente que a prefeitura canalizou recursos para poder injetá-los no ano eleitoral. Os contratos estão sendo assinados na finalização da atual gestão”,  analisa o vereador Professor Cícero (PT).

Em julho do ano passado, Tauillo assinou um contrato de empréstimo com a Caixa de R$ 30 milhões para pavimentação asfáltica. Dívida que a atual administração está pagando e as seguintes também terão que honrar.

O dinheiro para obras também vem de empréstimos do governo do Estado. Um exemplo são os R$ 1,9 milhão para pavimentação asfáltica da Avenida João Batista Salvadori, no Jardim Cidade Nova.

“Tauillo não tem medo de fazer dívidas. Imagina a dívida que o contribuinte vai pagar. Importante agora é a propaganda política. As fotos. Votos na eleição que se aproxima”, avalia o vereador Luiz Alfredo (Patriota).

As obras na avenida estão sendo questionadas pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Campo Mourão. Um inquérito civil público contra o prefeito investiga denúncia de uso indevido da função pública para favorecer proprietários de terrenos.

Na denúncia, é relatado que a Secretaria Municipal de Obras públicas abriu licitação para pavimentação asfáltica de 12.104 metros quadrados, implantação de galerias pluviais, passeio e sinalização verticais na avenida.

O ponto é que os terrenos de 61,2 mil metros quadrados e 122 mil metros quadrados beneficiados por leis que alteraram o zoneamento, com aumento da área urbana,  autorizados para loteamento e edificações, pertencem a Márcia Regina Tartadio, esposa de Augusto Tezelli, irmão do prefeito e, conforme a Promotoria, a “dois amigos íntimos da família.”

A reportagem do i44 News procurou a prefeitura, mas não obteve retorno sobre o maior volume de obras em 2020 ou informações sobre valores de pagamentos de empréstimos para infraestrutura urbana.

Servidores

De um lado, a prefeitura faz empréstimo e acelera obras de infraestrutura urbana em 2020. De outro, o prefeito mantém o discurso de dificuldade orçamentária, na arrecadação, para conceder aumento salarial aos servidores.

Neste ano, o Sindiscam (Sindicato Profissional dos Funcionários e Servidores Públicos Municipais de Campo Mourão) reivindicou aumento salarial de 7,5%, mas como não houve conversas com prefeitura, que justificou a pandemia de coronavírus para não negociar, a categoria espera reposição de 4% por conta da perda inflacionária. A legislação eleitoral veta reajuste acima da inflação em ano eleitoral após 10 de abril.

No ano passado, os vencimentos dos servidores municipais tiveram aumento de 3,9% depois da reivindicação de 7%. O retroativo referente a março, abril e maio, que seria pago em janeiro de 2020, ainda não caiu na conta dos trabalhadores.

Tauillo, em entrevista a uma rádio local, disse no final de 2019 que não tinha certeza se a prefeitura teria dinheiro para o salário de dezembro e o 13º salário dos servidores, que acabaram sendo pagos normalmente.

Historicamente, o servidores municipais recebem 50% do 13º salário em junho. Mas no ano passado, foram 30%. “A gente não sabe, em época de pandemia e ano eleitoral, se vai ser assim, se retroativo vai ser pago”, disse o presidente do Sindiscam, Dione Clei Valério.

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